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Deus Ex Machina é a má solução da má narrativa

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Já que você está aqui na Cúpula do Trovão, posso começar esse artigo partindo do princípio que você é um consumidor ávido de filmes, séries e, principalmente, de animes. E, por isso, provavelmente já se deparou alguma vez na sua vida com o termo “Deus Ex Machina”, né? Mas afinal, o que significa esse termo?

Deus Ex o jogo, capa
“Eu cheguei a achar que o termo nasceu com isso aqui”

Deus Ex Machina, significado e origem

O termo “Deus Ex Machina” refere-se ao surgimento/introdução de algum elemento narrativo, seja ele um personagem, um artefato, ou até mesmo um evento, que é repentinamente implementado pelo roteirista para solucionar um problema que, até então, seria classificado como “sem solução”, tipo “impossível”.

Basicamente, Deus Ex Machina é tudo aquilo que é jogado de qualquer jeito no roteiro para solucionar de maneira ilógica qualquer tipo de problemática que a história apresenta ao elenco. Utilizei o termo ilógica pois, geralmente, essa ferramenta fere os princípios da obra.

O termo nasceu na Grécia Antiga, em peças teatrais nas quais muitas terminavam com uma divindade “surgindo” no palco. Nessas peças, o ator correspondente era descido por um guindaste até o local da encenação, para ligar alguns pontos da narrativa e finalizar a história da peça, de maneira meio que “vai ser assim e foda-se”.

Deux Ex Machina, teatro na Grécia Antiga
“Acho que deu pra entender…”

E como é utilizada atualmente?

Hoje em dia, a expressão é empregada para desenvolver uma história que acaba por não levar em consideração sua própria lógica interna.

Pior ainda, costuma ser tão inverossímil que permite que o roteirista conclua a história com uma simples, porém improvável, solução. Na verdade, muitas vezes até de maneira ofensiva, na minha opinião.

A noção de Deus Ex Machina também pode ser aplicada à uma revelação de um personagem específico, cuja história particular envolva realizações pessoais complicadas, perigosas ou mundanas.

Concluindo, é basicamente uma intervenção inesperada que visa dar sentido à história (do plot ou de um personagem), substituindo o uso de eventos mais consistentes e amarrados com a trama apresentada na obra.

Traduzindo do latim, Deus Ex Machina significa literalmente, “Deus Surgido da Máquina”.

Exemplos de Deus Ex Machina, por favor

Nessa sessão do artigo, tome cuidado. Obviamente, se Deus Ex Machina é uma solução para problemas de tramas, ao citar exemplos aqui eles serão spoilers. Sendo assim, só leia se não se importar com um pouco deles. 

No mundo do cinema temos diversos exemplos que talvez sejam um pouco mais palpáveis e entendíveis. Em Vingadores: Endgame, por exemplo. O filme começa com o Tony Stark à deriva no espaço, sem chance de escapatória. Fazem todo um drama e tal, simplesmente para 30 segundos depois utilizarem a Capitã Deus Ex Machina Marvel para salvá-lo. Só eu achei isso forçado?

Ainda no universo de Vingadores, porém agora no primeiro filme. Você lembra da parte em que começa a invasão alienígena com aqueles minhocões voadores que estão destruindo a cidade inteira? Naquela hora, os heróis não conseguem encontrar uma forma hábil de enfrentar a ameaça, até que Bruce Banner, o Hulk, após indagado pelo Capitão América, larga a seguinte frase:

Bruce Banner em Avengers
“Esse é o segredo, Cap. Eu estou sempre bravo”

Bravo, senhores roteiristas. Bravo! Vocês acabaram de arruinar a ideia do personagem que a Marvel vem construindo a anos. Pense um pouco sobre isso:

Bruce Banner se transforma em Hulk logo que ele fica com raiva, certo? Isso já é senso comum dentro da lógica do filme e do universo que a Marvel vinha construindo. Entretanto, com essa simples frase, o roteiro fez parecer que ele controla o monstro verde, que ele se transforma quando quer. Obviamente, isso é uma bela duma inverdade (pelo menos no primeiro filme).

Larga do pé dos Vingadores, André. Outros exemplos!

Ok! Outro exemplo clássico do mundo do cinema é em Harry Potter e a Câmara Secreta. No segundo filme do menino bruxo, quando ele se vê encurralado pelo basilisco, surge do nada Fawkes carregando um chapéu.

Dentro desse chapéu, claro, tinha uma espada nunca antes mencionada: a espada de Godric Gryffindor. Naturalmente, com ela o protagonista consegue dar volta na situação e derrota o monstro. Conveniente, não?

Harry Potter e a Camara Secreta, basilisco sendo morto
“Saudades desse fiilme”

Outro exemplo, para concluir a sessão cinema. No “Retorno do Rei”, terceiro filme da franquia dos Senhor dos Anéis, logo após destruir o anel, Frodo está junto de Sam e eles estão encurralados por lava.

Não há rota de escape. Contudo, no fim, ambos são casualmente salvos um banco de águias guiadas por Gandalf, que, sinceramente, só dão as caras e momentos como esse rs

Os animes escapam dessa?

É claro que não. Existem muitos animes que já usaram e abusaram dessa “conveniente” ferramenta chamada Deus Ex Machina.

Um exemplo que eu adoro citar aqui é Bleach. Não me leve a mal, Bleach é um dos meus Guilty Pleasures favoritos. Agora, o Ichigo, que recém obteve poderes, entrar na Soul Society pisando na cara de todos os shinigamis que já treinam a séculos? Não né.

Ou ainda, porque diabos o Kubo fez questão de fazer com que o protagonista fosse de todas as “classes” de personagens do universo dele? O Ichigo é humano, fullbrginer, shinigami, hollow, vaizard, quincy… ele e tudo! Fora que, claro, que essas transformações e revelações sempre surgiam em momentos oportunos.

Ichigo de Bleach e todas as suas taransformações
“Uma imagem fala mais que mil palavras”

Em Naruto, eu diria que a Kyuubi é um tipo de Deus Ex Machina também. A raposa de nove caudas, apesar de ser introduzida nos primeiros momentos, ela é sempre o motivo utilizado para salvar o protagonista de uma situação crítica.

E o Kirito, em Sword Art Online, que sempre acaba despertando habilidades aleatórias para derrotar seus inimigos?

Yu-gi-oh não fica para trás nesse âmbito. Todas aquelas cartas que ele puxa quando fala que confia no baralho do avô dele poderiam ser facilmente intituladas de Cavaleiro Deus Ex Machina ou Espadas da Luz Ex Machina.

Fairy Tail eu nem vou comentar nada. Acho que já fui duro o suficiente quando falei sobre Suspensão de Descrença aqui na Cúpula.

Ainda, Mirai Nikki, quando apresentam o Deus do Espaço e do Tempo para explicar as coisas, porém ele, o fucking Deus do Espaço e do Tempo, está ficando sem tempo? Aqui talvez até poderia se encaixar como suspensão de descrença, mas não tem problema, pois isso só prova Mirai Nikki é horrível.

Yuno, de Mirai Nikki, chorando
“Não adianta chorar”

Deus Ex Machina não é um plot twist!

Foram muitos exemplos, eu sei. Mas acho que agora ficou bem claro o que é um Deus Ex Machina.

Num primeiro momento, esse termo pode ser facilmente confundido com um plot twist. Afinal, ambos trazem reviravoltas na trama. Todavia, é importante lembrar que um “plot twist” é algo construído previamente, e que, de repente, é explicado e sua mente explode.

Shingeki no Kyojin é um anime que trabalha isso com excelência, porque em todos os arcos criam novas perguntas através de diálogos ou eventos.

Shingeki no Kyojin, capa da segunda temporada mostrando elenco
“Toda temporada só vinham mais perguntas, eu não aguentava mais!”

No caso desse título, tudo já estava nos planos do roteirista, que nesse caso, é o próprio autor do megahit. Ele introduziu esses elementos, justamente para gerar teorias divergentes entre a comunidade, com intuído de, no fim, o desfecho ser uma surpresa.

The Promised Neverland também trabalha com maestria essas jogadas de brincar com a trama, fazendo ela ir para um lado e, de repente, vai para um completamente oposto. Reforço que Promised faz bem porque tudo funciona dentro da lógica do universo proposto ali. Discorri bastante sobre esse título no meu review e no nosso episódio do CúpulaCast.

Protagonistas de Yakusoku no Neverland
“Tá ai um título que caprichou nos twists”

A diferenciação dos termos “plot twist” e “Deus Ex Machina” se dá principalmente porque o Deus Ex Machina, como já explicado, é utilizado de maneira que muitos críticos de cinema até consideram preguiçosa e irresponsável.

Preguiçosa porque o elemento Deus Ex Machina permite que o responsável corrija, de maneira “mágica”, qualquer furo de roteiro causado por ele mesmo.

Irresponsável porque isso denigre (e muito) o nível da narrativa, já que, por ter sua estrutura significantemente danificada por soluções fracas e ilógicas, a mesma deixa de ser algo consistente e bem amarrado.

Finalizando…

Agora, acredito que você já tenha conseguido assimilar, entender e conceitar bem o que de fato é Deus Ex Machina. De bônus, acabou ganhando alguns bons exemplos de quando você ver gente defendendo tudo sobre Vingadores ou Bleach (apesar que no caso do último, são poucos os que defendem).

Existem fontes que tratavam sobre “bons e maus Deus Ex Machina do mercado”, mas, ao meu ver, não existem Deus Ex Machina bons.

Na vida real é possível sim ocorrerem coincidências, pois a vida real não é descrita por ninguém. Ou seja, no nosso cotidiano fortes coincidências são toleráveis porque é a realidade e deu.

Ela é inevitável e as coisas só acontecem, a não ser que você acredite em destino. Mas aí o papo já é mais em baixo e não vale elencar esse tópico aqui.

Agora, em uma obra existe um roteirista responsável pelo jeito como as coisas ocorrem. Essa pessoa é responsável em caso de coisas desconexas acontecerem dentro de um filme ou anime, porque era o trabalho dela utilizar de elementos narrativos para evitar tal acontecimento forçado ou ilógico.

E você, o que acha sobre o Deus Ex Machina?

Escrito por

André Uggioni

Fundador

Vendedor | Prolixo

Criciúma - SC

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