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O CGI ou CG (computação gráfica) é o futuro dos animes. Será?

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Você com certeza absoluta já ouviu falar em “animes CGI” ou “animes feitos em computação gráfica”. E, talvez, você também seja um dos muitos pertencentes ao grupo do “detestamos CG”. Afinal, a maior parte da comunidade otaku se encontra nesse quadrante, não é mesmo?

Entretanto, gostando ou não, a computação gráfica é algo que veio para ficar. Sendo assim, muito se fala sobre o uso do CGI nos animes.

Muito se fala mal, na verdade, mesmo que hajam bons estúdios que usem essa metodologia para produção de animes. E, muitas vezes, as produções acabam por ser ótimos animes.

Fortes exemplos de estúdios que usam muito bem esse recurso seriam os estúdios ufotable (de Demon Slayer), o Kyoto Animation (de Violet Evergarden) e o próprio Makoto Shinkai (diretor de Kimi no na Wa e Kotonoha no Niwa).

O que mais comumente vemos em obras atuais é a mescla entre o 2D e o 3D, como pode-se observar em títulos Demon Slayer, Vinland Saga e Goblin Slayer.

Contudo, ainda temos as chamadas obras “full CGI”, tais como Beastars e Ajin. Ambos ótimos animes que, se você dropou simplesmente por serem por computação gráfica, você deveria reconsiderar.

Capa CupulaCast Beastars

Mas afinal, o que é CGI? Como surgiu? Quando foi introduzido nos animes? É realmente “mais barato”, como é dito popularmente pela comunidade?

Essas e outras perguntas você irá responder lendo esse artigo.

Sendo assim, vamos começar!

Primeiramente, o que é “CGI”?

“CGI” é um termo em inglês para Computer Graphic Imagery (“Imagens Geradas por Computador”), popularmente conhecido como computação gráfica, CG ou CGI, tanto pela comunidade otaku, quanto pela comunidade num geral.

Histórico do CGI

O termo foi cunhado na década de 60, e até então servia para fins acadêmicos e militares.

Segundo o site TecMundo, em 1968, um grupo de matemáticos e físicos russos liderado por N. Konstantinov criou um modelo matemático de um gato se movimentando por uma tela.

Para isso, foi necessário criar um computador especial batizado como BESM-4, capaz de gerar centenas de quadros de movimento que podiam ser convertidos em filmes utilizados de forma comercial.

cgi pelo russo para gato se mover com vários computadores

Um pouco mais à frente na história, um entusiasta da internet e da realidade aumentada começou a utilizar essa tecnologia em outros ramos, dando origem ao CAD, ramo da computação gráfica voltada ao auxílio na criação de desenho e estruturas.

O CAD tornou-se um padrão até os dias de hoje (principalmente nas engenharias), com o uso de ferramentas como o AutoCAD para elaboração de plantas baixas de novos empreendimentos.

Ainda, de acordo com o TecMundo, durante a década de 1970 as técnicas de CGI passaram a atrair a atenção de designers e diretores, que passaram a usar cada vez mais ferramentas que evoluíam em ritmo acelerado.

Filmes com CGI

Um dos primeiros filmes a consagrarem o uso do CGI foi a série Star Wars, em seu primeiro capítulo, A Nova Esperança (1977).

Com o feito, e graças ao evidente sucesso do longa, George Lucas se tornou referência no uso de computação gráfica para criação de efeitos visuais.

No primeiro Star Wars foi usado pouco mais de 40 segundos de computação gráfica, na cena em que o líder da frota rebelde mostra a planta digitalizada da Estrela da Morte.

Na época, essa cena exigiu diversas semanas para ficar pronta.

star wars uma nova esperança filme com cg com luke na capa

Efeitos especiais e visuais são diferentes?

Sim, são. As duas técnicas geralmente coexistem e funcionam em conjunto, tudo depende das preferências dos diretores.

Alguns optam pelos efeitos reais em frente às câmeras, enquanto outros são mais prudentes e, por isso, decidem optar por um controle e uma flexibilidade maior para alterar as cenas na fase de pós-produção.

Afinal, arrumar pelo PC é bem mais fácil que mobilizar uma equipe inteira para gravação caso um detalhe tenha ficado mal executado.

Exemplos de filmes que usam efeitos especiais/visuais: Jurassic Park, Tubarão, Alien o 8° passageiro, Mad Max A Estrada da Fúria, entre muitos, muitos outros.

Se quiser ler a diferença entre essas terminologias, continue a leitura. Caso queira pular, é só clicar aqui para pular para a sessão de “CGI nas animações”.

Efeitos especiais:

Efeitos especiais estão mais relacionados ao uso inventivo dos recursos materiais disponíveis, ou seja, de coisas que de fato existem.

Um carro explodindo, uma cabeça sendo arrancada. A manipulação de lentes de câmera e da iluminação no momento da captar as imagens para provocar modificações na cena…

Além disso, dentro dessa categoria, temos os efeitos mecânicos, que são o uso de elementos artificiais dentro do cenário. Bons exemplos seriam: maquetes e puppets, ventania, fogo, chuva e até coisas mais complexas e perigosas, como explosões.

Um fato interessante é que a execução dos efeitos especiais perigosos precisa envolver a equipe responsável e apenas um grupo de pessoas estritamente necessárias para isso. Afinal, as normas de segurança são fundamentais e precisam ser seguidas à fim de evitar acidentes.

Tim Burton é um diretor que adora o uso de efeitos especiais, como pudemos ver em “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça” (1999).

A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça filme

Efeitos visuais:

Os efeitos visuais, por seu maior leque de possibilidades e devido ao alto nível da tecnologia cinematográfica atual, se transformaram no principal suporte do cinema atual.

Eles são formados por um conjunto de processos aplicados às imagens filmadas por meio da manipulação digital, ou seja, computação gráfica (CGI).

Na maior parte dos casos, a intenção é usá-los de forma que seja quase imperceptível nas cenas cuja gravação seria impossível por diversos motivos, seja um elevado custo ou uma cena de elevado perigo.

Atualmente, é bem difícil pensar em um filme sem algum tipo de intervenção de efeitos visuais. E, embora a maior parte da execução seja feita na pós-produção, os efeitos visuais são pensados com antecedência, durante a pré-produção e produção da obra em questão.

Efeitos Visuais em filmes como guardiões da galáxia

O CGI nas animações

O primeiro uso de CGI notável na história dos animes acontece em um filme de 1983, chamado Golgo 13: The Professional

A tal cena de quando o mocinho está fugindo dos vilões e helicópteros chegam para o atacar, foi feita inteiramente em CGI. Os helicópteros e todo o cenário externo foi feito em computação gráfica.

Um ano após Golgo 13, em 1984, nós tivemos uma junção quase que perfeita do uso de 2D com o 3D, com o filme Shinseiki Lensman.

Depois desses dois modelos, pouco se usou o CGI na indústria de animes do Japão. Foi então que em 1995 surgiu o aclamado filme Ghost in The Shell, que soube conciliar de maneira eficaz o uso de 2D com 3D.

Ghost in The Shell anime com cgi computação gráfica visual

Até então o uso do CGI nos animes era similar ao uso do CGI no cinema.

O intuito era o de ser apenas uma ferramenta para agregar valor à obra 2D. O 3D vinha para ser os efeitos visuais da obra.

O uso do CGI como complemento do 3D nos animes

Vale ressaltar que o CGI é usado de várias formas na indústria dos animes.

Construir cenários, texturas e até mesmo realçar criaturas e monstros. O tradicional Studio Ghibli usou os efeitos 3D em várias de suas obras, como Princess Mononoke (1997) e Howl’s Moving Castle (2004).

Em 2004, outro filme animado que merece destaque pelo uso excelente do 3D é o Steamboy, no qual foram criados backgrounds e veículos extremamente convincentes que se misturam aos personagens 2D desenhados à mão.

Esse uso de background da uma maior liberdade no ‘’movimento da câmera’’, e, por isso, seu resultado final é sensacional.

Têm um vídeo curto no Youtube mostrando o making-off dessa criação.

O uso do CGI muitas vezes é pontual, sendo quase imperceptível quando bem empregado e não causando aquela “estranheza”.

Nos animes, muitas vezes esse recurso é empregado em cenas de ação ou de dança. O clipe do anime Love Live! (My Dance Tonight), é exemplo desse recurso bem usado.

Nesse clipe é visível a liberdade criativa que o diretor teve ao criar a cena e também que o uso do CGI facilitou e muito para criar um clipe belíssimo visualmente. Outros exemplos são Gundam e Samurai 7.

O “full CGI”

Para muitos, como para mim, o uso do CGI sempre fez parte da realidade. Agora, para aqueles mais velhos, como o Pedro Bernardes aqui da Cúpula, foi algo que foi surgindo com o passar dos anos.

“Lembro na minha infância que eu achava os desenhos em full CGI muito bons. Desenhos como Max Steel e Action Man me trazem boas lembranças até hoje.

Se tratando de animes, me lembro como se fosse hoje o lançamento do filme do Final Fantasy VII (2001).

Quando eu vi o trailer no Fantástico eu fiquei alucinado (é, antes de existir YouTube, trailers e clipes internacionais passam na TV Globo). Era algo tão real que cheguei a pensar que esse era o ápice do 3D, que no futuro atores reais seriam substitutos por modelos 3D igual a esse filme.” – Pedro

Todavia, porque será que hoje em dia na maioria das vezes nós achamos tão ruins esse tipo de efeito em animes?

Por que não achamos ruins o “full CGI” de produções americanas, como Toy Story, Monstros S.A., Kung Fu Panda, e etc?

Existe um nome para esse fenômeno.

O “vale da estranheza

O termo “vale da estranheza” é uma hipótese utilizada no campo da robótica e CGI, que diz que réplicas da nossa realidade podem, de fato, replicar nossa realidade, mas não de forma idêntica, e isso pode provocar repulsa para os humanos que estão observando.

Por exemplo, o robô do filme I Am Mother. Nós, espectadores, temos empatia por ele e compramos a ideia de que aquele robô é crível. A sua fisicalidade e suas emoções são muito similares a de um robô, já a sua forma, não. Então, vemos isso como algo muito aceitável.

Já a robô Sofia, aquela mais inteligente do mundo, nos causa estranheza por se assemelhar muito com nós humanos, mas, por não ser idêntica, nos causa repulsa.

Agora, se pegarmos um universo fictício de A.I: Inteligência Artificial, teremos robôs daquela realidade que são idênticos aos humanos. Sendo assim, não os estranhamos.

ai inteligencia artificial filme com computação gráfica

Então, existe uma linha tênue no vale da estranheza. E além de tênue, é uma linha mutável que pode mudar com o passar dos anos.

Voltando aos animes Full CGI

Final Fantasy é o exemplo que na época era um filme que não causava estranheza, mas que hoje causa.

E em relação ao porquê daqueles filmes americanos citados não causarem essa estranheza que comentamos, se deve ao fato de que eles não tentam se parecer com nós, humanos.

Muitas vezes eles têm características cartoonescas ou exageradas, fazendo com o que nosso cérebro não queira fazer comparações com traços reais.

Fazendo uma analogia aqui, trazendo esse conceito para o universo dos animes, talvez isso se aplique.

Pois, estamos tão acostumados com animes em 2D que, quando surge animes em 3D, só conseguimos sentir repulsa, por eles nos causarem a tal “estranheza”.

Talvez, ainda falte uma identidade para esse modelo – uma vez que os 3D apenas tentam copiar os modelos 2D.

Exemplo de uma animação 3D de qualidade que saiu recentemente é Gantz 0, que, no mínimo, é excepcional para a atualidade.

Porém, animações assim demandam tecnologias e infraestruturas adequadas, para não acontecer igual a animação de Berserk de 2016.

O caso de Berserk 2016 é um caso clássico de “não faça se não tem os recursos necessários“.

gantz 0 anime com cgi protagonista com cara séria
Berserk de 2016 com cg horrivel e luta de espadas

2D ou 3D?

No Japão, se você abordar qualquer pessoa que assista animes e perguntar: 2D ou 3D? Segundo a Crunchyroll, você pode apostar com certeza que a pessoa irá optar pelo 2D.

Ainda, mesmo que no mundo fora do pais de comedores de sushi o CGI seja amplamente utilizado para a produção de desenhos animados, as obras que mais recebem investimentos e mais se tornam relevantes são sempre os animes em 2D.

Os animes em 2D são tão populares que o 3D, ao invés de tentar criar um estilo próprio, só tenta copiar o modelo 2D.

O que muitas vezes acaba em fracasso, mesmo tendo estúdios por lá que conseguiram se destacar na produção de obras em CGI, como o Khara (Darling in the FraXX), o Sanzigen (Terra Formars) e o Orange (Beastars).

Vale dizer que uma produtora de animes não precisa ser 8 ou 80. Ela pode trabalhar na média, utilizando boa parte das animações em 2D, e utilizar o 3D para fazer a transição de planos e alguns detalhes que seriam muito onerosos para a animação 2D convencional.

Apesar dos apesares, a animação 2D continua sendo mais adorada pelo povo, e por isso os estúdios precisam tentar se manter produzindo com essa metodologia.

Em 2017, estávamos vivendo uma época de “produção excessiva de animes”, onde os estúdios acabam pegando títulos demais para poder bancar as despesas da empresa, mas acabam comprometendo a qualidade final da obra por conta disso.

Afinal, pessoas são pessoas, e as condições de trabalho por lá já estão no máximo do abusivo, o que torna impossível exigir ainda mais dos animadores e dos estúdios.

É um assunto bem delicado e vale a pena ser aprofundado. O artigo da Crunchy está em inglês, mas vale a leitura (mesmo que traduzindo pelo navegador).

Animes 3D não são tão ruins quanto muitos pensam

Ainda existe muito preconceito quando se trata de anime 3D.

Afinal, existem atualmente produções excelentes em 3D, mas que tem pouco reconhecimento da comunidade simplesmente por ser em CGI.

Exemplo de obras assim são:

  • Knights of Sydonia
  • Ajin
  • Capitan Herlock
  • Blame!
  • Saint Seiya

Não cito Beastars nessa lista por esse título talvez conseguir fugir do tal “vale da estranheza”, já que se tratam de personagens não-humanos. Desta forma, fazendo com que várias pessoas achassem bem válido o CGI na produção.

Todas as obras listadas podem se enquadrar no “vale da estranheza”, mas essa sensação é rapidamente esquecida quando o espectador imerge na história desses excelentes animes, mesmo eles sendo full CGI.

Finalizando…

Como dito na introdução do texto, a computação gráfica, CG ou CGI (chame como quiser), veio para ficar.

O uso desse recurso aparentemente facilita o trabalho dos animadores japoneses, porque, sinceramente, imagina a luta “Midoriya VS Todoroki” sem o uso deste recurso. Ou então, Tanjiro VS Rui. Ou ainda, as lutas de Dragon Ball Super: Broly.

Os estúdios começaram a usar o CGI como forma de cumprir os prazos abusivos do dia a dia, e, teoricamente, baratear a produção.

Digo “teoricamente” pois é muito difícil encontrar dados precisos sobre a diferença de custos de uma produção 2D, uma full 3D e uma mesclada.

Contudo, hoje em dia, a mudança de planos, os giros de câmera e personagens/criaturas que exijam muitas partículas ou traços quase que completamente são feitos em computação gráfica.

Desta forma, é possível assumir que, como em toda e qualquer indústria capitalista, a intenção é lucrar.

Fazer grana. Diminuir gastos.

Logo, se os japoneses estão optando por ir para o 3D, existe um motivo. As vezes temos um resultado que agrada, como vemos nas obras citadas ao longo do artigo.

Porém, infelizmente as vezes acabamos, como audiência, nos prejudicando quando recebemos como produto final aquele dinossauro bizarro do Tate no Yuusha ou aqueles “carneiros do inferno” em Overlord.

Se o uso do CGI veio mesmo para ficar, é melhor se adaptar do que reclamar toda vez que ver algo 3D na tela.

Claro que, graças ao nosso senso crítico, está tudo bem reclamar e exigir algo de maior qualidade das produtoras, isso é fato.

A rotina do mundo da animação japonesa não é fácil, como nos mostra Shirobako. Mas isso não justifica a perda da qualidade somente em prol do lucro. Nunca justificará.

Escrito por

André Uggioni

Fundador

Vendedor | Prolixo

Criciúma - SC

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