Análise

Ajin é bom? Vale a pena ler o mangá? | Crítica

Seres humanos imortais, psicopatia e uma arte magnífica em Ajin!
17 min para leitura
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Ajin é mais uma daquelas obras que todo mundo já ouviu falar, mas nunca viu ou leu. De fato, é possível que você, estimulado pelo preconceito infundado contra o 3D expressivo do anime, tenha dispensado uma poderosa série. Mas, calma.

Apesar de achar válido fazer comparações com o anime, não vim falar dele aqui. Na verdade, venho falar do mangá, que esteve em publicação desde 2012, e veio a término somente agora, em fevereiro de 2021 (enquanto escrevo isto, porque você pode ler depois).

Uma afirmação que, talvez, não seja nada popular, mas é minha: Ajin é Tokyo Ghoul, só que um pouco melhor. 2.0. Modo turbo.

Nagai e seu IBM

E se você gosta de Tokyo Ghoul, paciência. Na verdade, eu gosto bastante do mangá também. O ponto é que eu acho que Ajin supera (e muito) as expectativas de seus leitores em grande parte da execução. E, apesar de bem falado entre aqueles que já viram ou leram, é nichado, justamente por causa de sua diferente animação.

Estou muito animada em escrever essa crítica, porque pesquisei um pouco e não vi ninguém que tenha comentado de maneira contundente sobre o final. E aqui vou eu, com coragem!

Deixo um aviso: até metade da análise, não darei spoilers, para caso você se interesse e pretenda ler. Depois, deixarei o aviso para comentar sobre o rumo que o mangá tomou.

A premissa de Ajin é boa. A execução, melhor.

Ajin, aparentemente, não tem nada de inovador. É um seinen com essa carinha mais “dark“. Mas existe um tanto de personalidade neste mangá que aprisiona seus leitores.

Nagai Kei é um estudante do Ensino Médio como qualquer outro, que pretende fazer medicina. Ele vive sua vida sem muitos problemas, buscando aprovação em todos os âmbitos da sua vida para que se destaque e alcance seus objetivos. Uma pessoa aparentemente pacífica e obstinada.

kei nagai em ajin

No entanto, o mundo em que Kei vive é “ameaçado” por espécies diferentes, quais sejam os Ajin. O governo, a mídia e a população os temem, e os classificam como terroristas. O motivo? A imortalidade.

Qualquer humano, nesta sociedade, pode ser um Ajin. Contudo, eles não veem os Ajin como humanos, mas sim como uma espécie demoníaca que se infiltra na sociedade para causar o caos.

É claro que seriam experimentos do governo.

experimento 003 ajin

E, não surpreendentemente, Kei descobre ser um Ajin no ápice de sua vida, no momento mais crítico. Após ser abatido pelo truck-kun, deveria morrer, mas não morreu. Um espírito negro, de nome IBM (Invisible Black Matter), acompanharia a sua jornada dali em diante.

Parece até um stand, mas invejosos dirão que eu vejo JoJo em tudo…

Podemos citar alguns animes por aí que tenham algo a ver com isso. Espécies diferentes, demonização de uma espécie, gente infiltrada… Essa obra realmente brilha somente em sua execução. Kei é um dos pontos-chave para isso, porque difere dos modelos estereotipados de protagonismo.

Esta é uma opinião bem particular, visto que vejo muitas pessoas em fóruns reclamando do protagonista. Acho, que, na verdade, essas pessoas consomem tanto o mesmo tipo de personagem, que se torna difícil deglutir algo fora do comum. E, aqui, eu te convencerei e listarei os motivos desta obra valer a pena.

Em meio à fantasia, a discussão política

Comentei acima sobre como acredito que Ajin e Tokyo Ghoul estão em situações parecidas, mas que dou alguns pontinhos a mais para Ajin.

E, fazendo um paralelo entre os dois, percebo que Tokyo Ghoul, em seu meio, perde-se nas intrigas entre as organizações terroristas de Ghouls, e até mesmo o próprio Kaneki parece não ter muito direcionamento. A história se arrasta, muito provavelmente para segurar seus leitores e marcar posição como uma grande obra na demografia.

Por outro lado, Ajin explana um assunto que parece raso, e o aprofunda, estendendo-o, gerando caules das raízes sólidas que constrói aos primeiros capítulos. Os traços de psicopatia dos personagens, inclusive do protagonista, são exacerbados, revelando a condição humana frente ao mais puro estado de caos.

Ajin não se rende à fantasia, e finca seus pés na realidade. Quase certeza de que esta situação aqui fez referência ao 11 de setembro.

ataque a prédio em ajin

Kei é o protagonista, e é a estrela dos primeiros capítulos. Suas ações contraditórias são, não ironicamente, completamente humanas.

Em alguns momentos, seu intelecto brilha, e ele pensa racionalmente. Em outros, a emoção o domina, o que nada tem a ver com algum sentimento puro de salvação alheia. Nagai sabe que é egoísta, abraça seu egoísmo e luta pela própria sobrevivência.

Isso será importante para desenvolver a principal trama da história, que envolve o antagonismo brilhante de outro personagem, que já comento. Fato é que o autor não explicita todos os seus pensamentos (e nem pretende mesmo fazer isso), porque, aos poucos, suas camadas vão dando as caras. Um personagem simples, narcisista e honroso.

nagai kei colocando a camisa

O que o mangá de Ajin tem de diferente do anime?

O estúdio Polygon Pictures, que trabalhou na animação de Ajin, também animou Knights of Sidonia, que é bem similar visualmente. O anime ganhou duas temporadas e foi veiculado pela Netflix, o que o tornou bem popular na época que saiu.

Para você, que não curte muito o 3D e a computação gráfica, o mangá é fechamento certo. Eu, pessoalmente, curti muito o anime na época que saiu, apesar de reconhecer que existem obras full CG que são superiores qualitativamente, como Beastars ou Dorohedoro. Não é, contudo, melhor que o mangá.

Dispensando os pontos visuais, creio que o mangá seja um show à parte. É lindo, tão detalhado, que não poderia, de maneira alguma, preferir o anime. O trabalho de Gamon Sakurai, o responsável pela arte, é de cair o queixo em alguns painéis.

imagem detalhada de avião em ajin
Quanto trabalho para desenhar um cockpit!

E, para mim, que sou uma pessoa conectada às histórias pelas emoções, foi um deleite. Os cenários são bonitos, claro, mas não há nada como a veiculação simples e pura de emoções por um desenho.

O anime, por outro lado, não conseguiu veicular a mesma coisa. Apesar de eu me recordar vagamente que tinha uma ótima trilha sonora, cortaram muitas coisas importantes do mangá. E, cá para nós, não tinha muita pressa. Se animassem Ajin com calma, poderia ser melhor do que foi.

Satou talvez seja um dos maiores vilões que eu já conheci.

Não, não estou falando só de antagonista. Estou falando de vilão, vilão mesmo, aquele que chuta cachorro e cospe no túmulo do pai (alô, Dio)! Satou é inteiramente mau, e não existe nenhuma simulação de bondade em suas ações.

E não preciso dizer que isso é incrível. Quer dizer, Sakurai não escreve Satou de maneira a torná-lo um vilão desenvolvido e bem detalhado moralmente como o Meruem (Hunter X Hunter), mas também não faz dele mero vilão maquiavélico somente por ser.

Satou após matar vários soldados

Satou tem traços, dos mais avantajados, de psicopatia. Não é caricaturado, e nem inconsequente; muito pelo contrário, suas ações são tão bem calculadas que ele entra em uma série de ganhos que chega a doer no coração.

Ele nunca perde, está dois ou três passos adiante, e isso não se dá somente por sua imortalidade. Satou é experiente em combate e um assassino de sangue frio.

E aos que dizem (aqui me incluo) que a vivência da infância reflete em todas as pessoas: tomamos uma vassourada na cabeça. Apesar de aparentemente ter recebido amor de seus pais, Satou sempre fora assim.

Satou quando criança
O pescotapa feliz depois de matar vários bichinhos

Enfim, quem é o verdadeiro protagonista de Ajin?

Esta angústia causada por ele cria um pedestal. É como se ele fosse o ser supremo intocável, enquanto todas as outras pessoas (inclusive os demais ajins) fossem minhocas se arrastando pelos buracos da terra procurando espaço para sair.

E neste ponto, Ajin é incrível. Satou se torna o protagonista, rivalizando com Nagai, estando vários passos à frente dele, e à frente de nós, leitores. Tudo o que ele faz poderia ser pensado (inclusive por nós), mas ninguém espera.

Com toda essa maquinação mental, o jogo vira. Não sabemos mais se o protagonista é Nagai ou se é o Satou, porque um jogo psicológico intelectual se estabelece entre os dois, e funda as verdadeiras bases de Ajin. Ele, enquanto vilão, não usa meios cruéis para salvar sua minoria deixada às traças.

Não, não. Quando falamos dele, a vilania é um pretexto à diversão. O terrorismo, um jogo. A tortura, uma brisa leve. Por isso, seu personagem rouba a cena e a torna fácil de continuar lendo até quatro da manhã.

Por isso, eu posso resumir Ajin aqui, nesta parte, em uma simples sentença: é uma guerra fria. De um lado, pessoas que lutam pela própria sobrevivência; de outro, alguém que busca a diversão por meio do caos. Ajin não é uma história sobre heroísmo, e faz sutis críticas dentro de todo o panorama sobrenatural.

Enfim, vamos para a próxima parte. OS SPOILERS COMEÇAM AQUI! Então, se você ainda não conhece a história, não assistiu, não leu (e pretende), pare um pouco, e volte a ler somente quando já tiver finalizado!

Clique aqui para pular os spoilers.

O poder de Satou

Faço um tópico especificamente para isso porque foi simplesmente absurdo. Depois de ter falado com Nagai sobre a condição especial de decapitação dos Ajin, ele ainda assim teve a coragem de realizá-la. Bem, não sei se coragem é realmente a palavra certa…

teletransporte de Satou em ajin
sabedoria desbalanceada

Em um resumo bem rápido, quando os Ajin perdem uma parte do corpo que está longe, o corpo reconstrói por conta própria. Portanto, se a cabeça for retirada do corpo, ou explodida, será construída uma nova cabeça. O que implicaria, desta forma, em perder a consciência anterior. As memórias não necessariamente sumiriam, mas ele não seria a mesma pessoa.

Após contar isso para Nagai, ele nunca havia sequer considerado que Satou usaria isto, e que teria algum senso de manutenção própria. Estava equivocado. Satou nunca hesitou em dispor do próprio corpo das mais possíveis maneiras para realizar seus atos terroristas.

Quando li esta parte, fiquei com a boca em um “O” enorme, porque realmente não esperava. E, claro, ele queria decapitar o Nagai não importasse o quê. Absolutamente maluco.

Os 5 segundos de fama dos personagens secundários em Ajin

Eu não esperava MESMO que o Tosaki fosse bater as botas tão rápido, nem que a mulher dele também fosse. Ainda que aquilo tudo parecesse se encaminhar para um final ruim, ele era um personagem secundário importante bem desenvolvido.

Tosaki abrindo a porta do carro

Mas ele morreu de forma muito honrosa, bem como os demais que estiveram ajudando na luta. Cumpriu sua missão até o fim, e morreu sem a sua amada. Um tanto quanto trágico, mas cumpriu seu papel narrativo. Para mim, ponto positivo.

Outro ponto alto foi a junção do Tanaka com a Shimomura, que parecem ter acabado juntos de alguma forma. (Vale ressaltar também que a Shimomura teve uma história de fundo bem legal!)

Quer dizer, eu realmente não esperava que os demais personagens pudessem ter alguma atenção. E ver a história dela com todo o trauma relacionado ao padrasto, e como ela parou, efetivamente, como subordinada do Tosaki, me fez gostar bem mais dela do que de primeira.

Izumi Shimomura sendo atravessada por um IBM

CONTUDO, todavia, porém e entretanto, não acho que teve tempo suficiente para desenvolver TODOS como deveriam ter sido desenvolvidos. Nem tudo são rosas, não é mesmo?

Na ânsia de tentar dar um significado a essa aliança doida cheia de gente completamente diferente, Sakurai tentou dar os cinco segundos de fama de todo mundo. Com alguns, funcionou. Com outros, nem tanto.

Os últimos capítulos foram insanos!

O que eu mais gostei desse final todo, no entanto, foi a consciência absurda do Nagai após sofrer um traumatismo craniano, perdendo todas as memórias dos dois meses como Ajin.

Ele raciocina a situação em que está, percebe que nada mais o levaria ali além de ser um Ajin, e se mata em segundos para “resetar a vida”, recuperar as memórias e completar a missão.

Nagai kei se matando em ajin

O que demonstra, no final, que nosso protagonista não é nada frio e nem calculista é uma conversa que ele tem com a sua mãe. Na verdade, ele se importa muito com os outros. Meio tsundere, tadinho.

Com isso, acabou também gerando uma inundação de Ajins, devido a seus fortes sentimentos lutando contra Satou, revelando seu verdadeiro interior. Sinto que o autor quis mostrar que, frente ao mais puro mal, uma avalanche de emoções é inevitável. Foram cenas bem bonitas, eu sentia estar vendo tudo animado.

inundação em ajin

Sem contar que não esqueceram nadinha das indagações que costumam ser feitas em seinens mais sérios (inclusive, se quiser ver alguns dessa demografia, a gente também tem uma lista legal aqui!).

Sobre a vida, sobre o futuro e sobre as expectativas, fala-se tudo. O protagonismo destes questionamentos fica com o doutor Ogura (que, na minha opinião, podia ter morrido, ficaria bem legal ali).

doutor pesquisador de ajins
Um exemplo de personagem útil à narrativa expositiva

O final (de Ajin e da minha crítica)

Minhas expectativas foram elevadas ao máximo dos máximos, e eu esperava que o final fosse, de alguma forma, bombástico. Não foi exatamente o que aconteceu, porque a resolução foi muito simples.

O Kaito, amigo do Nagai, entra em cena só nesse finalzinho, para ajudar o amigo em alguns segundos.

Eu achei que aquilo fosse trazer um flashback desenvolvendo a amizade dos dois, mas não foi o que aconteceu. No final das contas, foi um personagem um tanto quanto dispensável. Alguém poderia ter feito o papel dele. Então, ele entra para o rol de personagens secundários desprezíveis. Foi mal, Kaito.

kaito salvando o nagai do satou em uma motocicleta

E o movimento final desesperado feito por Nagai resultou de uma de suas conversas com Nakano Kou, seu amigo ajin. O Kaito realmente só agiu no começo e no fim, de maneira muito conveniente.

Também achei, que de alguma forma, fossem explicar o porquê do Satou ser tão forte com relação ao seu IBM e ter gerado a inundação junto ao Nagai. Quer dizer, que emoções tão fortes Satou teve para isso? Somente a diversão? Qual foi o ponto traumático para o desenvolvimento? Então, creio que isso não tenha ficado tão claro, e eu esperava um pouco mais disso.

E quem imaginou que o Nagai, sozinho, depois de tudo, conseguiria fazer alguma coisa? E com uma situação tão boba quanto pular em um rio?

Bem, talvez o Satou só estivesse cansado de brincar com todo mundo, e ser pego foi um plano dele. Eu preferia acreditar isso, mas não dá pra saber. O autor não deixou isso claro, e ninguém tem bola de cristal.

Ele deixou uma grande brecha para uma sequência, com a criogenia do Satou. Será que ele irá continuar? Afinal de contas, ele não morreu, apesar de estar incapacitado.

Finalizando a crítica do mangá Ajin

Eu com certeza leria se tivesse uma outra série, de verdade. Já tivemos um cast aqui sobre finais ruins, e se vale a pena ver o anime ou ler o mangá mesmo que o final não seja um daqueles. Esse aqui super entra na lista. Decepcionada com o final, mas foi uma experiência gostosa.

Depois de toda a discussão séria e super “cult” que eu estava criando na minha cabeça para definir os mais possíveis finais, aquele que eu menos queria foi o que aconteceu. Mas com essa abertura que foi deixada ao último capítulo, um lastro de esperança ficou. Foi, contudo, uma experiência ótima!

Em alguns momentos eu vibrava, em outros eu falava “uau”, e em outros eu cutucava meu irmão para mostrar uma página específica. Essa animação toda vale a pena, ainda que não seja exatamente o que eu esperava nos finalmentes. Sakurai me segurou e me fez ansiar pelo próximo capítulo.

Ajin brinca com questões científicas de maneira objetiva, não enrola seus leitores e faz plot-twist atrás de plot-twist, sem ter medo de deixar a sensação de “preciso ler o próximo capítulo”. E, agora que está finalizado, você não precisa esperar. Vai valer o seu tempo!

Para mim, Ajin vale muito a experiência por seu incrível antagonista e pela constante tensão. Estarei correndo para ler se sair mais alguma coisa!

Escrito por

Helena Nunes

Estudante desesperada

Revisora textual | Cantora de chuveiro

Campos - RJ

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