Análise

It’s Okay To Not Be Okay é bom? Vale a pena ver o drama? | Crítica

It’s Okay To Not Be Okay, reflexões sobre o ser humano e saúde mental
22 minutos para leitura
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Os dramas são séries asiáticas, que fazem muito sucesso ao redor do mundo. It’s Okay To Not Be Okay (ou Tudo Bem Não Ser Normal) é um drama coreano recente, lançado em 2020 na Netflix, trazendo a saúde mental como foco do seu enredo.

Imagem promocional da série Its Okay To Not Be Okay com os personagens principais

Dito isto, vamos ao que interessa? Bom, a série aborda questões de saúde mental e, de modo geral, retrata alguns processos psíquicos pelos quais os personagens passam.

Por abordar diretamente sobre algumas dessas questões, fiquei pensando o que eu poderia falar sobre. Portanto, que tal eu te inteirar de alguns detalhes sobre It’s Okay To Not Be Okay e entender melhor sobre o ponto de vista psicológico que a série aborda?

Uma breve introdução da história: do que se trata It’s Okay To Not Be Okay?

A história da série gira em torno dos 3 personagens principais Ko Mun-yeong e os irmãos Moon Sang-tae e Moon Gang-tae

Imagem promocional da série Its Okay To Not Be Okay

A Mun-yeong é uma famosa escritora de contos infantis, que marca seus livros com ilustrações sombrias (que lembram bastante as obras de Tim Burton) e mensagens subliminares.

Diante disso, temos Sang-tae que é apaixonado pela escritora e seus livros, assim como é apaixonado por dinossauros. Embora seja o irmão mais novo, Gang-tae, é o responsável pela sua família trabalhando como cuidador em hospitais psiquiátricos.

Porém, a relação de ambos os irmãos sempre foi frágil e repleta de sentimentos ambíguos de um pelo o outro. Após o acontecimento traumático vivenciado na infância, as duas crianças ficaram desamparadas e correndo risco de serem separadas.

Por isso, Gang-tae, mesmo sendo o irmão mais novo, assume a liderança da família e passa a fugir com seu irmão mais velho. Sang-tae foi o único presente durante o evento traumático, e por um mecanismo de defesa não se lembra dos detalhes do ocorrido, apenas de uma borboleta.

O foco principal de It’s Okay To Not Be Okay e sua relação com saúde mental

Imagem retirada da série Its Okay To Not Be Okay de uma borboleta sendo segurada

A associação da borboleta com o evento traumático faz com que Sang-tae tenha um medo irracional de borboletas. Por isso, sempre que a primavera está chegando ele e seu irmão fogem para outro lugar. Ainda em Seul é que os caminhos dos dois irmãos e da escritora se encontram.

A história se desenrola quando os rapazes retornam à cidade natal, Seongjin, da qual fugiram 20 anos atrás. É lá que toda a magia acontece! De volta a cidade de origem, os irmãos Moon e a escritora Mun-yeong enfrentam diversos desafios relacionados aos seus respectivos traumas e fantasmas do passado.

Um resumo importante sobre a famosa escritora: ela possui um passado complicado e doloroso, do qual ela não consegue esquecer e nem elaborar. Ko Mun-yeong não cresceu como todas as outras crianças, e teve seu desenvolvimento sócio-afetivo gravemente prejudicado.

Imagem retirada da série Its Okay To Not Be Okay da Ko Mun-yeong sorrindo

Contudo, o que seria isso? Bom, esse desenvolvimento diz respeito tanto ao emocional quanto a nossa socialização, interação e aprendizagem. Portanto, também envolve nossas habilidades sociais, como comunicação, assertividade, enfrentamento de problemas dentre outros.

Ainda podemos dizer que ela desenvolveu um transtorno de personalidade anti social, além de demonstrar enorme dificuldade em manter relacionamentos com outras pessoas e estar sempre com fome. Guarde essa informação para mais tarde!

De modo geral, a série retrata de maneiras direta e indireta processos emocionais relacionados aos traumas e também a saúde mental de cada um deles. Consequentemente, o trabalho é brilhante, capaz de te fazer perceber um pouco das nuances da complexidade do ser humano.

Mesmo você não sendo da área de psicologia, vale a pena conferir tudo que a série tem para mostrar. É uma viagem imersiva dentro do mundo psicológico de cada personagem, e consegue explicar de forma muito didática e divertida como cada um vivencia isso.

Abordagens sobre saúde mental em It’s Okay To Not Be Okay

A série mostra como os irmãos Moon encontraram na fuga uma forma de lidar com o ocorrido, e também como a escritora encontrou nas compras uma forma de lidar com os seus próprios traumas do passado.

Tudo que ela acha bonito e ela deseja, faz de tudo para ter, sejam roupas, sapatos ou pessoas. Bom, ela seguiu o Gang-tae até a cidade natal… já dá para imaginar, né?

Pensando que a saúde mental foi o foco principal do programa, também existiram coisas subliminares e subjetivas ou específicas que provavelmente nem todo mundo percebeu. Sem entrar nas questões que a série aborda de forma direta, vou falar sobre as minhas percepções sobre os eventos principais. 

Durante a série, somos levados por duas viagens paralelas. Assim, uma viagem é da história como algo contínuo, onde cada episódio te conduz ao próximo de forma natural, e a outra é a de cada episódio ter uma conclusão em si. 

Me lembra bastante a estratégia de gamificação, na qual vamos avançando nas fases e obtendo algumas recompensas. A cada episódio parece que uma nova fase é desbloqueada.

Para vocês entenderem melhor, cada episódio traz um tema e uma reflexão específica em cima dela através dos contos infantis da Mun-yeong e, também, traz novas informações para o desenvolvimento do enredo.

Mantendo meu foco na viagem principal, da continuidade dos eventos, a série fala sobre saúde mental de uma maneira delicada, forte e triste.

Falar de saúde mental sem ter delicadeza não ajuda a trazer reflexões e preparar o público para lidar com o conteúdo forte e triste que muitas vezes permeia nosso mundo interno. O equilíbrio entre os assuntos abordados com a expressão cenográfica dos sentimentos e emoções beira à perfeição.

Equilíbrio entre as abordagens de saúde mental

Em cada episódio nós somos convidados a fazer diversas reflexões e sentir inúmeras emoções. É inevitável sentir empatia por cada um, e querer guardar eles em um potinho longe de toda maldade.

Mas, são tantas informações que a gente pode acabar se perdendo e se misturando. O drama aborda de forma direta, mostrando pacientes com determinados transtornos mentais, e de forma indireta através de questionamentos e diálogos entre os personagens.

Os personagens são assombrados pelos fantasmas do seu passado, e qual a diferença entre eles? A meu ver, absolutamente nenhuma. Nenhum deles sabe como lidar com isso, e se embolam em uma bola de sofrimento contínuo. Além disso, a série consegue explorar muito bem como apresentar isso. 

Detalhes sobre processos psíquicos e formas de lidar

A escritora nunca recebeu afeto de uma maneira apropriada na sua infância, e o único momento onde sentiu esse calor humano, guardou de forma intensa na memória.

Imagem retirada da série Its Okay To Not Be Okay da Mun-yeong quando criança e seu pai lendo um conto infantil para ela

Por isso, quando digo que eles não sabem lidar, me refiro a lidar de uma forma que seja funcional, que de fato os ajudem a superar e seguir em frente. Por exemplo, a Mun-yeong não sabe lidar com o afeto com a falta dele.

Além dela, Gang-tae guarda memórias distorcidas da sua realidade. Dessa forma, faz com que se lembre somente de uma parte da sua própria história e com que ele se perca dentro de si mesmo, de seus sentimentos conflitantes e de toda uma situação caótica de vida.

Imagem retirada da série Its Okay To Not Be Okay de Sang-tae dizendo ao irmão "Não foi por isso que a mamãe teve você."
Deu para entender as distorções, né?

Portanto, ele não é capaz de enxergar as coisas como de fato aconteceram, ele as lembra da forma como interpretou. E é sobre as interpretações de cada um sobre si e os acontecimentos de suas vidas que a série tanto aborda. É inevitável pensar porque eles são desse jeito e se eles não poderiam simplesmente mudar

Vamos combinar, aqui entre nós, que a gente passa a se questionar sobre nossa vida também. Nesse sentido, passamos a nos perguntar porque somos dessa forma e porque a gente simplesmente não muda. Além disso, quantas coisas existem a nosso respeito que ainda não conhecemos?

Quais são as reflexões sobre saúde mental?

Os diálogos da série são incríveis fontes de reflexão, tanto de forma direta quanto de forma indireta. Ou seja, tanto pelo o que os personagens falam e expressam quanto por aquilo que “fica no ar”. E só quem assistiu para entender o significado dessa imagem, de Gang-tae ajudando seu irmão e de quando o papel se inverte.

Imagem retirada da série Its Okay To Not Be Okay do Gang-tae acalmando seu irmão

Quem determina o que é ser normal e o que é ser louco?

Reassistindo a série, me deparei com um momento muito importante e muito bem elaborado pela produção. No segundo episódio, Sang-tae está indo para a sessão de autógrafos da autora Mun-yeong e encontra um menino fantasiado de dinossauro. Então, relembrando para quem não se recorda, Sang-tae tem autismo e é completamente apaixonado por dinossauros.

Ao chegar perto do menino fantasiado, os pais do rapaz ficam sem entender e começa aquela confusão. Enfim, o resumo é que o chamam de louco, e Mun-yeong sendo muito perspicaz questiona se alguém ali é psiquiatra para diagnosticar alguém daquela forma.

Nesse sentido, existem milhões de momentos onde a série coloca em pauta o que é ser normal e o que é ser louco. Além disso, ainda trabalham na dificuldade que existe em aceitar que tudo bem não ser normal. Aos vários “tudo bem” que a série apresenta, meus favoritos são tudo bem ser quem você é e tudo bem os processos que a gente vive.

Sentimos uma vasta combinação de emoções e não só uma por vez

Aliás, a série articula muito bem sobre as nossas emoções. Em especial sobre a dualidade emocional que sentimos. Como, por exemplo, Gang-tae e seu cansaço em ser cuidador e o sentimento de culpa pelo mesmo motivo, Mun-yeong cansada de enfrentar seus traumas sozinha e ainda sentindo desespero se alguém tenta ajudar.

Imagem retirada da série Its Okay To Not Be Okay dos irmãos Moon sentados no ônibus

Essa articulação emocional também reside em demonstrar que não temos controle sobre muita coisa. Ao assistir você percebe como muitas vezes as pessoas não podem ser autênticas, ou seguir as suas vontades. Existem regras, limites, e mil coisas para avaliarmos antes de só agirmos.

Não existe divisão entre mente e corpo, nós somos uma coisa só

Ainda sobre as emoções… Lembram que eu falei sobre a fome constante da Mun-yeong? Pois bem, juntando com o que eu disse antes, sobre não ter recebido afeto, talvez você já tenha entendido de onde vem essa fome insaciável da escritora.

Imagem promocional de Its Okay To Not Be Okay com Gang-tae abraçando Mun-yeong

Conforme os episódios passam, você descobre uma Mun-yeong que deixa de sentir essa fome constantemente, mas que depois de um tempo ela retorna. A questão é que nem ela mesma entende que fome é essa, quando parou de sentir e porque de repente quando a fome volta, retorna de uma maneira específica.

Vou explicar pra não te deixar perdidinho(a)… Como ela não recebeu afeto na sua infância, ela não tem essa experiência, ela não sabe como é e como a faria sentir. Portanto, ela não sabe lidar nem com o afeto nem com a falta dele.

Complexo, né? Porém não para por aí, depois de morar um tempo com os irmãos Moon, a escritora passa a experimentar todos esses sentimentos. Estes sentimentos são o que eu gosto muito de chamar de quentinhos no coração. E claro, chega um momento dramático da história em que os irmãos deixam de morar com ela e ela volta a ter fome.

O mundo psicológico é um mundo real

Todos esses processos que nem mesmo os personagens principais entendem logo de cara é que trazem todo o mundo psicológico e de saúde mental para a série. É uma aventura para cada um deles, assim como para nós, os telespectadores. Mas não quer dizer que seja uma aventura divertida e cheia de sentimentos bons.

Então, em resumo, a viagem que é feita por todos os personagens e não só os principais, é uma viagem de autoconhecimento e aceitação. Portanto, eles enfrentam diversas situações juntos, se confrontam, passam a se conhecer e começam a se alinhar por dentro e por fora.

Imagem retirada da série Its Okay To Not Be Okay do Gang-tae segurando Mun-yeong

Por isso, esse processo é o que podemos chamar de ser autêntico, ser congruente. Na psicologia, o termo congruente se refere a agirmos da forma que pensamos e vice-versa, atendendo também às nossas necessidades. Simplificando, significa que se nós sentimos fome, nós vamos comer, sentimos sono, nós vamos dormir e assim por diante. 

Como a série It’s Okay Not To Be Okay aborda os processos de cura emocional? 

Cada um de nós tem as suas próprias questões emocionais não resolvidas ou mal resolvidas. Por consequência cada um de nós encontrou uma forma de lidar com elas mesmo que isso não seja funcional e não ajude a elaborar o problema para de fato seguir em frente. Com os irmãos Moon e a escritora Mun-yeong não é diferente.

Imagem retirada da série Its Okay To Not Be Okay da Ko Mun-yeong e os irmãos Moon sentados um ao lado do outro sorrindo e tirando foto

Sendo assim, o processo que pouco a pouco é nos mostrado na série, pode ser resumido em duas palavras: conscientização e confrontação. No processo terapêutico, nós utilizamos essas técnicas (e outras) para auxiliar nossos pacientes.

Consciência e confronto

A conscientização é trazer à consciência todas as coisas que não eram percebidas pela própria pessoa, mesmo que ficasse muito claro para quem está do lado de fora. E a confrontação se refere ao confrontar os comportamentos e pensamentos, de modo que a pessoa possa refletir sobre si mesma.

Resumidamente, conforme cada personagem confronta um ao outro em seus modos de ser, agir e pensar eles vão adquirindo maior consciência sobre si mesmos e se entendendo um pouco mais. Esse caminho percorrido é o do crescimento de cada um, cada qual com seu próprio fantasma para enfrentar.

Atribuindo novos significados aos eventos e símbolos traumáticos

Durante esse processo, a borboleta também se transforma, e o que antes se associava a um evento traumático e brutal na vida de todos, se transforma na própria cura emocional.

Imagem retirada da série Its Okay To Not Be Okay do Sang-tae acalmando outra pessoa

Parafraseando a própria Mun-yeong, que deixa um recado para o futuro da série e uma mensagem forte para todos que assistem: “Um trauma deve ser encarado de frente, e não mitigado por trás“.

Portanto, é somente quando cada um encara o que precisa ser encarado que eles são capazes de crescer e melhorar, enfrentando suas questões de frente.

Ao assistir somos levados para um mar de reflexões. Por isso, entendemos porque cada um é do jeito que é e porque não dá para simplesmente mudar e ser diferente do nada. É um longo, e muitas vezes doloroso, processo de cura

It’s Okay To Not Be Okay como um dos livros infantis

O drama tem um começo, um meio, um fim e uma moral da história (a mensagem subliminar de seus contos). Do mesmo modo como nos seus livros infantis, a mensagem subliminar ou a moral da história não é algo direto.

Assim sendo, uma mensagem que fica em aberto, é possível que cada um tenha sua própria interpretação de acordo com sua subjetividade. Isso torna este drama algo fascinante, e não é à toa que se tornou meu drama favorito número 1.

Resumindo: a moral da história reside no próprio título, e assistir It’s Okay To Not Be Okay é uma delícia em todos os sentidos. Sendo assim, você acompanha o caminhar de cada um dentro deles próprios, e o que vai acontecendo ao redor ao mesmo tempo.

A história começa com os personagens vivendo suas vidas da forma como conseguem, seja utilizando máscaras para esconder o que sentem, ou se escondendo do mundo. De um modo peculiar, eles passam pelo que chamamos de jornada do herói, porém sendo retratado de uma forma bem mais realista.

Conclusões e a sacada genial da tradução do título “It’s Okay To Not Be Okay”

Concluindo… sobre os eventos finais, da cura emocional de cada ferida que possuíam, eu só deixo a imagem que ilustra o fim da história. Um menino sem máscaras, um menino fora da caixa e uma menina sorridente. Esse foi o resultado brilhante da trajetória incrível dos nossos amados irmãos Moon e Mun-yeong.

Imagem do livro final da escritora Ko Mun-yeong com três personagens, dois meninos e uma menina

Não houve um foco no romance e nas histórias secundárias do drama nessa análise. Porém, deixo claro que em todas as histórias secundárias, há o crescimento dos personagens e abordagens sobre saúde mental também, que valem a pena acompanhar.

Vamos combinar que o título traduzido (Tudo Bem Não Ser Normal) foi uma sacada de mestre. Não teria outro título que representasse tão bem o que a série quer passar, muito menos de tudo o que ela consegue trazer para além dela mesma.

Foi uma sacada muito boa na hora de traduzir, e tem muuuuito mais que dá pra falar e tirar de lá. Deixando de me estender eternamente por aqui (e se não ficou claro minha intenção de que vocês assistam), vou deixar o restante pra vocês refletirem sozinhos, porque a graça da vida é descobrir coisas novas por conta própria!

Imagem retirada da série Its Okay To Not Be Okay de Moon Sang-tae sorrindo e acenando

Por último, não menos importante, vale ressaltar que deixei minhas impressões a respeito da série e que não me aprofundei em todos os detalhes para não ficar super extenso esse texto. Sendo assim, vale a pena assistir o drama e ter suas próprias impressões sobre ele.

Até a próxima 🙂

Escrito por

Amanda Franco

Psicóloga

Escritora | Resenhista

São Paulo - SP

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