Análise

Kai Byoui Ramune é bom? Vale a pena ver o anime? | Crítica

Kai Byoui Ramune: ensinando sobre psicossomática de um jeito leve e divertido
14 minutos para leitura
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Você já pensou que suas emoções podem se manifestar como doenças no seu corpo? Seja qual for a sua resposta, essa é exatamente a proposta de Kai Byoui Ramune. Se você tem curiosidade por psicologia, esse anime com certeza vai te satisfazer assim como fez comigo.

Imagem de Ramune e seu assistente Kuro de costas um para o outro

Kai Byoui Ramune é um anime que com certeza passou despercebido do seu radar quando estreou na temporada de inverno desse ano. Mas eu te garanto que ele é uma boa pedida. É emocionante e divertido, ao mesmo tempo aborda que temas mais difíceis, mas de uma forma absurdamente simples.

Por essa razão, é literalmente um “brincando que se aprende”, e você se diverte tanto que nem percebe a complexidade do que apresentam. As soluções das incognoses (doenças que as pessoas apresentam, em suma, são bastante simples e óbvias. Então, o que faz esse anime ser interessante?

Vem comigo entender esse paralelo que tracei entre Kai Byoui Ramune e a Psicossomática, um ramo da psicologia que estuda as manifestações emocionais no nosso corpo.

Capa do anime Kai Byoui Ramune, com os personagens principais
  • Gênero: Comédia, Psicológico, Sobrenatural
  • Estúdio: Platinum Vision (Kono Oto Tomare!)
  • Material fonte: Mangá
  • Episódios: 12 episódios
  • Página do anime na Cúpula e no MAL

O que é psicossomática e o que Kai Byoui Ramune tem a ver com isso?

A Psicossomática é, resumidamente, uma área da ciência psicológica que estuda o fenômeno da manifestação das nossas emoções no nosso corpo. O que isso significa? Que alguma doença, alergia ou outra coisa que você apresente fisicamente pode ter a ver com seu estado emocional.

Uma prova concreta disso é a gastrite nervosa. Nesse caso, não tem uma causa biológica (bactéria e/ou feridas no estômago) que causam as dores, mas sim uma causa emocional. Essa causa emocional pode ser estresse, ansiedade, etc.

Portanto, prestar atenção no que e de que forma sentimos é muito importante. Mas o que Kai Byoui Ramune tem a ver com isso? Assista o trailer, para se familiarizar com os elementos do anime e com o resto da explicação:

De uma forma bastante divertida e didática, o anime mostra essas manifestações por meio de doenças sobrenaturais que acometeram os pacientes que vão visitar o Dr. Ramune, as Incognoses.

Então, as pessoas que apresentam as Incognoses (reforço que são as doenças sobrenaturais sem causas “aparentes“, originadas pelas incógnitas) visitam o Dr. Ramune em busca da sua cura.

O anime mostra que nem todas as doenças podem ser curadas da maneira tradicional, e envolvem questões mais complexas de tratamento. Neste caso, até parece rolar uma “treta” entre uma Clínica de Psicossomática e o Dr. Ramune, pois a Clínica não acreditou nos sintomas absurdos que uma paciente apresentou.

Em contrapartida, Dr. Ramune (que na verdade não é nem médico) em sua grande empatia acredita no relato e consegue traçar planos de tratamento para os pacientes. Por se tratar de coisas sobrenaturais e absurdas, entendo esse ponto e até acho bem divertido. Mas eu falo disso mais para o final, tá?

Manifestação de Incognoses, suas causas e seus tratamentos

Uma pessoa que chora condimentos (maionese, molho shoyu, ketchup e outros), outra tendo suas ideias literalmente pipocando da sua cabeça… O anime utiliza de elementos muito diferentes para expressar essa ideia da psicossomática, através da manifestação específica de cada paciente.

Imagem de Koto chorando com lágrimas de shoyu

Sendo um anime de comédia, ele traz aspectos importantes de saúde mental de uma forma didática e lúdica. Através da observação de alguns momentos da vida de seus pacientes, Ramune consegue identificar o problema real e bolar um tratamento. Mas seus tratamentos são fora da curva de tão estranhos. E, mesmo assim, são simples, óbvios e fazem total sentido.

As causas das doenças são, em sua maioria, causadas por estresse e outras tensões que se transformam em Incógnitas (e depois, essas incógnitas se transformam em Incognoses). Relembrando o conceito matemático, uma incógnita é algo que você não sabe ainda, mas que precisa descobrir através de uma equação.

Vamos ao X da questão: é difícil determinar qual foi a incógnita específica que ocasionou a doença, mas é possível encontrá-la. Por isso, podemos encontrar os motivos que levaram a incognose a aparecer e também elaborar um tratamento adequado.

Imagem de Ramune com olhar feroz

Em Kai Byoui Ramune, os tratamentos são super diferentes. Está com problemas emocionais, pois não consegue expressar o que verdadeiramente sente? Toma aqui um cházinho da verdade, e fale tudo sem pensar.

Pois é, é mais ou menos… Na verdade, é exatamente assim que Dr. Ramune trata seus pacientes. Ao mesmo tempo em que parece simples e óbvio, até mesmo um pouco sádico, dá para perceber alguns pontos que divergem. Por exemplo, a solução de ter aquele problema emocional específico é bem simples: fale sobre o que você sente. Mas, será que é assim tão fácil fazer isso?

E essas Incognoses aí, só aparecem nos pacientes?

Este é outro ponto muito bom do anime. Embora o Ramune não tenha nenhuma manifestação de uma incognose propriamente dita, ele também tem suas questões emocionais que precisam ser resolvidas. Assim como cada paciente desenvolveu uma doença por questões emocionais (ou do coração, como dizem no anime), Ramune desenvolveu a sua.

Imagem de Ramune com ferimentos de queimadura no rosto comendo arroz

Ramune é uma pessoa extremamente empática, mas de um modo que o leva a autosacrifícios. Por isso, ele literalmente passa por diversas coisas e até quase morre tentando ajudar seus pacientes. Ele é o curador de todos ao seu redor, porém ele também precisa de ajuda.

Por esta razão, o anime conseguiu trazer todos os aspectos que mais julgo importante quando se trata de saúde mental: não é tão fácil ajudar e ser ajudado quanto parece, e as causas podem ser bem mais complexas, não dependendo só do paciente para resolver. Além de nem todos os profissionais estarem aptos para ajudar, e de que quem cuida também tem suas questões a resolver.

Me ajuda a te ajudar

Ramune entende que ele pode oferecer ajuda, mostrar o caminho para que a pessoa se cure de sua incognose, mas que a escolha não é dele. É a própria pessoa quem escolhe o que vai fazer, qual caminho vai seguir. Embora a maioria de seus pacientes comece pelo caminho mais rápido (e não o melhor), ele continua tentando ajudar.

Imagem de Ramune na janela, perguntando "porque você escolheu logo isso?"
Porque você fez logo essa escolha?

Não é fácil ajudar e ser ajudado, pois você só pode ajudar quem quer realmente ser ajudado. Mas nem todo mundo consegue buscar ou aceitar ajuda e, no anime, especialmente quando percebem três coisas. A primeira, responsabilidade, costuma ser tão difícil quanto a segunda, que é a imposição de limites.

Quando você entende que ninguém pode fazer aquilo no seu lugar, as coisas se tornam assustadoras. Ainda mais se o que você precisa fazer é impor limites com as outras pessoas. Quando impomos limites, respeitando o que sentimos e nossas necessidades, acabamos por gerar alguns conflitos (com as pessoas que se aproveitavam disso).

Imagem de Kuro expressando sua tristeza

A terceira coisa, a meu ver, é a que mais prejudica quando se trata de ser ajudado. Junto com a responsabilidade que cada um tem por si mesmo, a imposição de limites nos relacionamentos com outras pessoas, temos o medo.

A emoção que ninguém quer sentir: o medo

O medo faz parte das nossas cinco emoções primárias (os divertidamente). Ele não está ali por acaso, ele serve para nos proteger. Mas deixando a sua função básica de lado, o medo que eu falo aqui envolve outros aspectos.

É o medo de decepcionar alguém, machucar alguém ou machucar a si próprio quando é preciso buscar ajuda e se permitir ser ajudado. Essa emoção está presente em todos os episódio de Kai Byoui Ramune, assim como as outras. Mas, especialmente, o medo aparece com maior frequência, inclusive no próprio Ramune.

Imagem de Aona Shun com as duas mãos apontando com o dedo indicador em suas têmporas e olhando para cima

Por essa razão que o anime consegue ser tão bom, mesmo que seu gênero seja de comédia e as coisas pareçam absurdas demais. O anime retrata os conflitos emocionais que existem e, principalmente, a supressão das emoções. A esquiva de enfrentar uma situação por sentir medo do que pode vir a acontecer, e esconder o que se sente.

Um breve comentário sobre a parte técnica antes de finalizar

A animação é bonita, a trilha sonora é bem agradável e combina perfeitamente com o anime e a sua proposta. Ouve aí a abertura:

A história também é redondinha, sem muitos furos (não notei nenhum). Apenas sinto que a ordem dos episódios poderiam ser diferentes, especialmente quando contam a história do seu assistente Kuro. Do começo até quase o final, Kuro sempre esteve com o Dr. Ramune como seu assistente.

Então você pensa no óbvio: que ele sempre esteve ali por algum motivo. E esse motivo só é revelado ao final do anime, o que faz perder o sentido para mim. Poderiam ter feito uma introdução dele lá no começo mesmo, e seguir depois contando cada caso.

Mas, tirando essa única questão, todo o resto me agradou bastante. Você entende logo de cara do que se trata o anime e o que esperar dele, assim como acaba se envolvendo com a história de cada personagem. Se você for mais emotivo, como eu, prepare seu lencinho. Do contrário, (pessoa sem coração) não precisa se preocupar.

Brincadeiras a parte, ao se envolver com a história dos personagens, somos embalados por empatia e por identificação em diversos momentos. Afinal, somos todos humanos não é mesmo?

Kai Byoui Ramune é emocionante, divertido e delicado

Finalizando minha crítica, Kai Byoui Ramune me fez chorar em diversos momentos ao longo de seus 12 episódios (e me fez desejar que houvessem mais). Ele ensina de forma bem leve o quanto que nossas emoções influenciam nossa saúde, tanto física quanto psicológica.

Imagem de Aona Shun criando em seu universo particular

Uma coisa interfere na outra, pois não somos divididos, somos um único ser. Os sintomas físicos são os que mais chamam a nossa atenção, que notamos com maior facilidade. Mas, para chegar a isso, houveram muitas coisas guardadas e acumuladas ao longo do caminho.

E enfrentar essas coisas todas não é fácil mesmo. Talvez, por isso, que o anime aborde a temática de uma forma tão divertida (nada como ver pipocas saindo da cabeça da criança que foi proibida de usar sua criatividade) e, depois, mostre as coisas um pouco mais “realistas”.

Inclusive, ele te mostra sempre os dois caminhos que existem: aquele da solução fácil e rápida, sem enfrentamento da situação; e aquele da solução simples, mas que exige coragem e não é tão fácil assim. E aí, você vai encarar essa e assistir o anime?

Escrito por

Amanda Franco

Psicóloga

Escritora | Resenhista

São Paulo - SP

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