Análise

Zetsuen no Tempest é bom? Vale a pena ler o mangá? | Crítica

Shakespeare provavelmente mudaria o enredo de Zetsuen no Tempest
14 minutos para leitura

Zetsuen no Tempest chegou às minhas mãos por acaso. No natal, meu pai havia dado a coleção completa ao meu irmão como presente de amigo oculto (sim, fazemos amigo oculto em casa, com somente quatro pessoas!), e, neste começo de março, decidi pegar os dez volumes para a leitura. Então, acabou sendo um presente duplo.

Quem está acostumado a ler as coisas que eu escrevo, sabe bem: eu gosto de dar spoilers. Inclusive, quem me conhece em nível mais profundo, sabe até que gosto de levar spoilers. Mas, em caráter excepcional, farei aqui uma análise sem spoilers de Zetsuen no Tempest, uma modalidade nova da Helena.

E, apesar de ser antigo, também não assisti ao anime, então essas são as minhas análises apenas com relação ao mangá. Não sei se mudaram a história nem nada do tipo. Já adianto, para quem quer saber: vale a pena ler Zetsuen no Tempest? Depende.

Temos aqui um tipo de leitor bem específico, que é como eu entendo: aquele que está acostumado com a suspensão de descrença e, que, além disso, gosta de romances. Não falo só romances de maneira apaixonada, mas romances enquanto inspirações de contos épicos românticos, como Hamlet, de Shakespeare.

Eu, pessoalmente, acredito que Zetsuen tinha grande potencial para ser um grande sci-fi. Entretanto, se perde um pouco na fantasia e nas referências mitológicas que traz.

zetsuen volume 1
  • Autor: Kyō Shirodaira (história); Arihide Sano e Ren Saizaki (arte)
  • Ano de publicação: 2010 – 2012
  • Volumes: 10 (50 capítulos)
  • Gêneros: Ação, Fantasia, Mistério, Romance
  • Demografia: Shonen (Monthly Shonen Gangan)
  • Editora de publicação: JBC (Brasil)

Você conhece essa sinopse?

Um feiticeiro, exilado em uma ilha, que carega dois irmãos para um castigo: é uma parte do que seria “A Tempestade” de William Shakespeare. E também é mais ou menos como começa Zetsuen no Tempest.

Hakaze Kusaribe, a mais forte maga do clã Kusaribe e princesa do Gênesis (calma, já explico), também sofre o mesmo destino. É jogada em uma ilha remota, solitária, na qual é incapaz de utilizar o seu poder, para que não impeça um plano maior.

Hakaze com barril largada na ilha

Impotente, Hakaze tem uma ideia brilhante: ela não poderia usar magia, mas poderia se conectar com alguém que, mesmo sendo um humano normal, ela poderia orientar ao uso da magia. Fez, então, um pequeno amuleto, que, em circunstâncias normais, seria inútil, mas, para ela, era o bote de salvação que a ligaria ao mundo exterior.

Este amuleto chega a Mahiro Fuwa, residente em terras nipônicas que, inconformado com a morte de sua irmã adotiva, Aika Fuwa, decide ajudar Hakaze Kusaribe a escapar da ilha, em troca de uma condição: achar o culpado pela morte de sua irmã.

Mahiro Fuwa e sua irmã morta

Uma coisa muito maior parece estar acontecendo…

Enquanto isso, em uma cidade japonesa, Yoshino Takigawa vivencia uma situação extremamente esquisita. Pessoas ao seu redor começam a se tornar pedra, como se a Medusa os tivesse enfeitiçado, enquanto um grande fruto acorrentado lança seu poder sobre a cidade.

Por que ele não havia sido petrificado também? Seu amigo, ele mesmo, Mahiro Fuwa, o salva de sua terrível morte, afirmando estar usando magia. Tudo parece muito complexo, mas Mahiro diz estar fazendo isso por sua irmã morta.

Este começo é, de certa forma, promissor. Eu não sabia, neste momento, se estava gostando (ou não), mas sabia que Zetsuen no Tempest tinha potencial.

Dois amigos se envolvendo por acaso em uma grande conspiração de magia me parece um cenário perfeito para antagonizá-los e também formar dois lados de uma moeda no qual não se sabe quem, realmente, está certo.

Isso só aconteceu em partes.

Zetsuen no Tempest se perde em suas mitologias

Anteriormente, eu disse que a Hakaze era a princesa do Gênesis, correto? Bem, inicialmente, temos dois pontos contrários: a árvore do Gênesis e a árvore do Apocalipse.

Não demora muito para fazer uma correlação com bases bíblicas cristãs: em Gênesis, há duas árvores no paraíso: uma, a árvore do conhecimento do bem e do mal; outra, a árvore da vida. Como Adão e Eva comeram da árvore do conhecimento, isso geraria, muitos anos depois, o Apocalipse.

Então, temos aqui um momento de instabilidade no qual esses grandes frutos que petrificam as pessoas são parte da árvore do Apocalipse, e que geram um grande caos.

E, do outro lado, temos a árvore do Gênesis, na qual a Hakaze confia e acredita ser a resolução dos problemas do mundo. Por quê? Simplesmente porque a sua magia advém da árvore.

A Hakaze usa produtos da civilização (ou seja, tudo o que passa por mãos humanas) e oferece à árvore do Gênesis, obtendo magia em troca disso.

Contudo, ela parou na ilha porque outro mago de seu clã diz que a árvore do Gênesis é a causadora de todo o caos, e, que, na verdade, é necessário despertar completamente a árvore do Apocalipse.

Mas, então, como foi que Zetsuen se perdeu?

A inspiração cristã não foi a única. Zetsuen no Tempest também traz e remonta possibilidades de enxergar a grande árvore como a Yggdrasil, que faz parte da mitologia nórdica.

Além disso, também cita a possibilidade de vê-la como uma grande serpente, que cobre o mundo, um grande mal e, ao mesmo tempo, um grande bem, como a serpente de Ourobouros, o ciclo infinito.

Ou seja, acredito que você já tenha entendido: no meio do caminho, são milhares de citações mitológicas e teóricas que desviam a sua atenção e trazem mil possibilidades. É como se o autor não soubesse o que fazer com a força maciça que criou.

Então, ele abre o leque de possibilidades, te avisando: isso pode ser qualquer coisa.

O que, para mim, foi negativo. Um exemplo de como trazer mitologia e teoria de forma concisa, pontual e bem desenvolvida é Fullmetal Alchemist, que incorpora a pedra filosofal e as explicações sobre alquimia, bem como o Ourobouros.

Aqui, me pareceu um pouco falta de foco. Era como se no começo ele soubesse exatamente o que fazer, e, depois, já não fizesse mais sentido. Então, ele decidiu realmente ampliar as possibilidades e trazer qualquer uma delas, em diálogos extremamente extensos e divagantes sobre as possíveis teorias (entre os personagens).

Inclusive, os diálogos sobre essas teorias acontecem NAS lutas. Enquanto as lutas estão ocorrendo. Ou seja: fãs de lutinha, passem longe.

Além disso, ainda tem o romance…

Não me entenda mal: eu amo romance. Em metade do tempo, eu procuro romance em animes. Em outra metade, eu espero que as pessoas falem comigo sobre romance em animes. De verdade, eu gosto muito. Mas eu acho que PRECISA ter SENTIDO.

Se você for realmente ler (ou assistir), já deixo avisado que vai rolar uma situação meio incestuosa. Nada contra, quer dizer, tudo contra, mas realmente não adiciona nada à história. Não precisava MESMO daquilo.

Ademais, ainda tem os demais personagens, e alguns acabam juntos sem nem terem algum tipo de interação que sugira isso (e o prólogo conta algumas histórias anteriores e posteriores ao final).

O romance move a história, sem, na verdade, ter algum tipo de relação com a fantasia. Tenta se entremear, mas, ao mesmo tempo, parece forçado, não natural. A única que torna essas relações mais naturais é a Hakaze, e já falarei sobre isso.

Entendo que, como o autor provavelmente gosta bastante de Shakespeare, tentou fazer uma tragicomédia romântica, com vistas ao épico, como fonte de inspiração. Só que acho que não deu muito certo.

Os vários focos pareceram tornar a história uma vitamina de situações, e você fica sem saber para onde olhar.

O trágico dos primeiros capítulos se dissipa; o romance dos capítulos do meio parece se confundir com carência; os personagens não são muito carismáticos; o final é uma mescla bagunçada de tudo o que falei antes.

Diga-me o que tem de positivo em Zetsuen no Tempest!

Claro, claro, não vou só cutucar quem gosta. Há, sim, alguns pontos positivos, a começar pela premissa e pela apresentação de mundo bem criativa.

Mas, além disso, a arte do mangá é realmente, em algumas cenas, contemplativa. Eu gostava de parar em uma página ou outra (acho que fazemos um pouco mais disso quando lemos os mangás impressos) para apreciar a arte.

É simples, mas muito bonita, dando atenção e mais detalhamento nos momentos certos. Além disso, também consegue passar bastante os sentimentos dos personagens. Apesar de eu achar que grande parte do nosso elenco não é lá essas coisas, uma personagem em específico é a estrela:

Hakaze Kusaribe. Não é um gênio tático como Mahiro ou Yoshino. Não é sarcástica e sem graça como a Aika. Nem é plana como os demais personagens secundários.

A Hakaze é a personagem mais humana de Zetsuen no Tempest, vacilando quando não entende o que fazer, colocando-se à frente quando necessário e demonstrando emoções quando os demais personagens parecem as pedras de Stonehenge. As suas cenas dão emoções aos demais, e se ela não estivesse ali, essa obra seria 50% menos palatável.

Sua presença cria diálogos interessantes e realmente válidos, e até mesmo os personagens que menos gostei tiveram conversas significativas com ela. É uma personagem feminina bem escrita, e faz um grande papel dentro da obra.

Afinal de contas, vale a pena ler Zetsuen no Tempest?

Apesar de tudo o que eu falei, não é exatamente ruim. É provável que você já tenha lido coisas melhores por aí, mas, de verdade, não espere que seja algo coeso, coerente ou pé no chão. Eu fui meio assim, e, por isso, acabei me decepcionando.

Assim como a gente já faz com algumas obras aqui, suspenda a descrença. Talvez você goste mais do que eu gostei se já for com essa mentalidade.

Posso dizer, em suma, que é mediano. Alguns momentos são bons, e, em outros, a história desanda como um barco afundando. Posso dizer que, em especial, os primeiros capítulos são cativantes e misteriosos, realmente te levando a querer ler para descobrir o que vai acontecer.

A resolução dos mistérios já não é tão interessante. Creio que valha mais a pena para descobrir quem, de fato, matou Aika Fuwa, irmã do Mahiro (resolução que ocorre no oitavo volume, o melhor dos volumes finais). Essa parte foi a que mais gostei e a que mais fez sentido, dentro do universo criado.

O universo é legal e as magias fazem sentido (dentro daquele espaço), mas o enredo desanda, e traz soluções completamente disformes e desfiguradas das soluções lógicas dos primeiros capítulos.

Enfim: leia quando tiver um tempinho, e se estiver sem uma recomendação legal. Se você for bastante fã de Shakespeare, vai gostar das citações esparsas no mangá. Se você gosta de fantasia, deve achar legal. É isso. Zetsuen no Tempest é legal, mas, para mim, não passa disso.

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Escrito por

Helena Nunes

Estudante desesperada

Revisora textual | Cantora de chuveiro

Campos - RJ

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