Análise

Paprika, de Satoshi Kon, é bom? Vale a pena ver o filme? | Crítica

Lucy in the Sky with Diamonds e Paprika: tudo a ver.
12 minutos para leitura
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Paprika é o terceiro trabalho de Satoshi Kon em que eu coloco as mãos para recomendar. Sinto ter visto todas essas obras tão tardiamente, pois deveria tê-las conhecido muito antes. Muito embora também ache que não teria a mesma impressão delas, certamente seria algo que eu veria mais de uma vez (e continua sendo).

Preliminarmente, se você quiser ver as duas outras, fiz uma análise de Perfect Blue e recomendei Tokyo Godfathers (meu primeiro encontro com Kon) em um de nossos listões. Por vezes, sinto como se estivesse tendo algum tipo de conversa com um amigo quando vejo os filmes dele; lamentável, claro, que ele tenha partido já há algum tempo (2010), mas as obras ainda falam por si.

Eu tenho quase certeza de que escolhi os filmes na ordem certa. Tokyo Godfathers, apesar de se tratar de um assunto sério, é leve e divertido. Perfect Blue é instigante e assustador, e puxa o espectador a outro patamar. Paprika mistura diversas dessas referências, transformando o divertido em instigante e o sonho em realidade. É absurdo como todos os filmes são de alta qualidade! Enfim, é claro que eu recomendo. Não preciso pensar duas vezes.

Agora só falta, para completar o quarteto maravilhoso de filmes do Kon, o Millennium Actress. Devo assistir qualquer dia desses, quem sabe? Mas, voltando ao nosso assunto, eu poderia xingar (de maneira positiva) milhares de vezes (como faço dentro da minha cabeça), porque esse troço aqui é GENIAL. Com todas as letras. E vamos ver o porquê!

equipe investigando
  • Estúdio: Madhouse
  • Data de lançamento: 25 de novembro de 2006
  • Gêneros: fantasia, terror, mistério, psicológico, suspense, sci-fi
  • Direção: Satoshi Kon
  • Duração: 90 min

Uma breve síntese da história

Tokita, gênio da informática (e MADO SCIENTISTO!), cria um dispositivo chamado “DC mini“, capaz de fazer com que as pessoas compartilhem sonhos. Ou seja, assim que forem dormir, basta colocarem os aparelhos ao mesmo tempo, e estarão juntos, compartilhando mentes. O próprio conceito, em si, já parece complicado.

tokita
Olha o gênio aí!

Com a ajuda de sua parceira, Dra. Chiba Atsuko, utiliza o DC Mini a um bom propósito: tratamento de pacientes. Se pensarmos que, nos sonhos, temos diversos medos e traumas sendo expostos, seria de muito valor a um profissional de saúde mental. E é aí que entra o nosso nome: assim que Chiba adentra o mundo dos sonhos, ela assume um alter ego – Paprika.

Veja bem, utilizei as palavras alter ego de propósito, porque o filme considera concepções Freudianas. Id, ego, superego e alter ego; tudo é levado em consideração ao estabelecer o enredo e a motivação dos personagens. Mas, antes de começarmos a falar sobre isso, vejamos o verdadeiro problema da história.

Roubaram o DC Mini, e eles não sabem quem o pegou. Contudo, isso cria um grande caos quando, o ladrão, ao se conectar com qualquer máquina de psicoterapia, consegue colocar alguns dos trabalhadores da clínica em estado de sono. Um dos trabalhadores, neste estado, começa a sonambular, e se joga do prédio, com as ilusões que são formadas em sua cabeça.

Tokita chama isso de anafilaxia, que seria uma reação alérgica, ao uso do DC Mini, que atingiria principalmente aqueles que já usaram mais vezes. Com vários casos, Chiba e toda a equipe precisam descobrir o que está acontecendo e quem roubou o aparelho. Então, Paprika entrará em cena para a investigação!

Paprika e Chiba

As duas são completamente diferentes. Vê-las é como observar Mima Kirigoe, em suas duas faces, de idol e de atriz, em Perfect Blue. Enquanto Paprika é alegre, destemida e impulsiva; Chiba é séria, ponderada e racional. São exatamente como dois lados de uma moeda, não fosse o fato de que Paprika é a própria Chiba, só que no mundo dos sonhos.

E é exatamente isso que é o alter ego: é a sua versão alternativa, aquela que está dentro de você, mas que você não consegue enxergar. Justamente porque é muito diferente de você mesmo(a). Em suma, a própria expressão alter ego significa “outro eu”.

Puxando um pouco de sardinha para o Freud, Kon estabelece os sonhos exatamente como ele considera. Naquele mundo alternativo, as pessoas liberam o seu “eu interior” reprimido, impulsivo e inconsistente, que é a base do id Freudiano. Todos os desejos, ímpetos e ações liberam-se, porque nele não há limites. Esta falta de amarras dá vida a Paprika e torna o filme um emaranhado de situações nas quais precisamos prestar muita atenção.

Então, vamos com calma. 1. Cada ser humano possui desejos reprimidos, e, ao sonhar, ele os libera. 2. O DC Mini foi feito para compartilhar sonhos. Bem, não parece que vai dar certo! Tokita com certeza não pensou muito nisso (até porque é um personagem bem bobo e fofo), mas rolou um problemão.

sonho estranho paprika

Fato é que toda essa ambientação traz um jogo mental e psicológico muito bem narrado, com cortes de cena que parecem surreais, e combinam com toda a estética também surreal do filme.

Peter Pan? Tarzan?

São tantos filmes e tantas referências ao longo do caminho que a gente mal consegue identificar todas. Elas obviamente não precisam ser faladas: um cara pelado com uma mulher nos braços se agarrando em cipós no meio da floresta só pode ser o Tarzan.

paprika voando
Se parece com algo que você já viu antes?

E isso também faz parte dos sonhos: aquilo que vemos se incorpora lentamente ao nosso estágio R.E.M (rapid eye movement). O R.E.M é o momento de sono mais profundo, e também aquele de maior atividade cerebral, no qual os sonhos são formados. E isso é muito legal, porque eles também consideram esse pico de atividade cerebral no filme, explicando que o DC Mini se alimentaria de energia cerebral.

Voltando ao assunto, as referências são gigantescas. Além de todos os filmes, ainda coloca, ocasionalmente, borboletas azuis a passearem na tela. Remonta, claro, a lenda oriental da borboleta azul, ao indicar: o destino e as decisões se entrelaçam; o futuro, a nós pertence.

dra chiba investigando com borboleta azul a seu lado

Os sonhos são absurdos e completamente psicodélicos (igualzinho ao que acontece na vida real). Afinal, a gente sonha umas coisas bem esquisitas de vez em quando. Voar, cair, ser comido por bichos, ser atacado, estar correndo de algo que a gente nem sabe, falar com pessoas que a gente nunca viu… ah, que gostoso! Dormir é bom demais…

Só não é tão bom quando temos pesadelos. E, claro, é o caso. Todas essas figuras psicodélicas e surrealistas se juntam quadro a quadro, em cenas completamente perturbadoras, com uma trilha sonora igualmente perturbadora. É para incomodar, e funciona. Os cortes de cena são tão bem feitos que você também, junto com os pesquisadores, fica a se perguntar por alguns segundos: espera, é o sonho ou a realidade?

sonho estranho
Is this the real life? Or is it just fantasy?

A metalinguagem também está presente!

Para quem não sabe o que é metalinguagem, é quando a obra fala de si mesma. Por exemplo, quando um pintor pinta um quadro sobre a arte de pintar; ou quando um poeta escreve um poema sobre escrever um poema. Deu para entender? É isso. Aqui, Satoshi Kon não somente faz todas as costumeiras barbeiragens dele com a direção (que fica lindo demais), como também explica!

Um tempo do filme curto, mas precioso, é dedicado a explicar o que se chama de “Deep Focus“, que é o estreitamento do ângulo da câmera para a captura de toda a cena, na qual você mostra tudo ao seu espectador. Você quer que ele tenha dimensão do espaço, que perceba tanto o que está perto como o que está longe, trazendo profundidade à cena.

cena distorção paprika

Toda a genialidade foi colocada em diversos cortes de cena, que transitavam de um tempo a outro, de uma pessoa a outra, de um movimento a outro: tudo é dinâmico, vivo e consistente. Satoshi com certeza desponta nesse filme; e, nesse quesito, ultrapassa o meu tão amado Perfect Blue. Não há tempo de olhar para os lados, pois seus olhos devem estar grudados na tela. Se não o fizer, você não conseguirá distinguir a realidade da fantasia.

Vale ressaltar que este filme foi inspiração direta ao filme Inception, do diretor Christopher Nolan. Eu não sei explicar tão bem, mas este vídeo abaixo demonstra e compara os dois filmes, indicando o que Nolan aproveitou do trabalho de Kon. Se você quiser saber mais sobre, é bem informativo!

Finalizando a crítica de Paprika

Apesar de eu ter falado bastante, eu não falei nada que comprometesse a sua experiência com esse maravilhoso filme. Não quis falar. Diferentemente de Perfect Blue, que é um pouco mais confuso e interpretativo, Paprika tem menos abas à interpretação, mas nem por isso deixa de ser genial.

É uma viagem pelo surreal, que traz consigo diversos importantes questionamentos a respeito de identidade e realidade, sem deixar de lado o entretenimento. Se eu tivesse que fazer alguma ressalva, seria apenas a respeito da revelação de quem é o ladrão, porque seu papel poderia ter mais explicações. Ainda assim, acredito que o fechamento foi ótimo! De fato, ele não era o foco da história.

Resumindo, por que assistir Paprika?

Em suma, por que você deveria assistir Paprika? Bem, então vamos listar: é um filme com direção que dá origem (trocadilho, hehe) a vários filmes nortes-americanos, bem como inspira diversos diretores. É, também, apesar de um amontoado de técnicas já usadas antes por Kon, a junção de todas elas; é genial que tudo o que tenha sido bom nos filmes anteriores (pelo menos que eu tenha visto) ele tenha reaplicado aqui, com força e clareza.

Ademais, Paprika é também uma coletânea de concepções cinematógraficas, filosóficas e folclóricas, com diversas referências. Se até eu, que não tenho muito conhecimento a respeito de cinema, consegui captar uma coisa ou outra, você aí que está lendo (e sabe) com certeza verá bem mais do que eu!

E, por fim, vale ressaltar a capacidade criativa de demonstrar como o real e o surreal podem se misturar. Em uma proposta que não tem tanto potencial quanto parece, o filme se expande – e cria em você a sensação de que é algo completamente novo. Ele me lembrou da sensação de quando, vários anos atrás, assisti ao filme Waking Life, e senti que o mundo real de fato poderia ser uma farsa. Como diria o Sharkboy: “sonhe, sonhe, sonhe, sonhe, sonhe!”

De todos os três filmes que vi do Kon, esse é o que tem a melhor trilha sonora (e está tocando na minha cabeça até agora, umas 6 horas após assistir ao filme). Quem sabe até amanhã eu já tenha esquecido. Enfim, você está perdendo o seu tempo aí por quê? Aproveita e assiste logo!

Escrito por

Helena Nunes

Estudante desesperada

Revisora textual | Cantora de chuveiro

Campos - RJ

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