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Como mangá é feito? Quanto ganha um mangaká? Entenda TUDO!

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Mesmo gostando muito dessa mídia, para nós, aqui do outro lado do globo terrestre, fica bem complicado entender como mangá é feito ou quanto ganha um mangaká. No mínimo, você vai ter que pesquisar no Google para tentar entender, né? Bem, você fez isso, e cá estamos.

O passo a passo para as histórias em quadrinhos japonesas chegarem até as prateleiras podem até ser de certo modo simples para explicar, mas não são nem de perto passos fáceis de serem dados.

Ainda, por mais que o processo de produção do mangá tenha evoluído muito com o tempo, com o uso de recursos mais tecnológicos para desenhar, por exemplo, a idealização do mangá até sua chegada nas bancas, ou seja, o processo inteiro que engloba a produção, ainda é deveras trabalhoso e burocrático. Pelo menos para mim.

Além de complexo, o processo inteiro raramente é explanado de maneira intuitiva e didática. O porquê disso é uma grande incógnita para mim, mas eu tenho um palpite que se baseia no quão reservados os mangakás são, e na competitividade das editoras entre elas mesmas.

Sério, até mesmo o grande Oda-sensei não possui 1 única foto decente na internet inteira, de tão reservado que ele é. E olha que ele é autor de fucking One Piece, a série que já vendeu mais de 460 milhões de cópias no mundo e é sem dúvidas a mais famosa do Japão.

One-Piece-todos

Sendo assim, é difícil entender como é a rotina e o trabalho completo dos mangakás porque, bem, eles não são bem do “tipo falador”.

No entanto, neste artigo, você conseguirá informações gerais sobre como mangá é feito, como é a relação editor/mangaká e também como essas obras são publicadas por lá.

Vem comigo, pois vou te mostrar que pesquisar no Google valeu a pena!

Sumário

Use os tópicos abaixo para ir direto para o ponto do artigo que mais te interessa!

Para fazer o mangá, precisamos antes da ideia

A palavra “mangá” (漫画) pode ser traduzida para algo como “desenhos irresponsáveis” e, por isso, trazendo para nosso contexto ocidental, chegamos em “histórias em quadrinhos“.

Então, sim, não tente elitizar a palavra mangá, ou até mesmo seus pseudo-irmãos, manhua e manhwa, porque apesar de terem diferenças entre si, todos os 3 termos são usados para designar “histórias em quadrinhos”, só que cada um de uma terra natal diferente. Claro, existem outras diferenças, mas não pretendo me aprofundar nelas por aqui.

Também, não vou me aprofundar demais na história dos mangás, ou seja, em como eles surgiram, mas o que você precisa saber é que os mangás já estão entre os japoneses há mais de 9 séculos.

Sendo assim, eles já são parte da estrutura socio-cultural de lá. Desta forma, e devido ao tempo já de caminhada dessa mídia, nós temos mangás de todo e qualquer gênero, tema e público-alvo.

Ou seja, existe mangá para todo mundo. E existe muito mangá sendo produzido, publicado e consumido. Mas isso não automaticamente indica que é fácil chegar nesse ponto. E também não implica que é simples ter a primeira ideia. O estopim inicial. Sabe, aquele pensamento original, interessante e divertido.

Principalmente hoje em dia, quando já tivemos tantos títulos sendo publicados, e ainda temos muitos outros em publicação, mesmo desde antes dos anos 2000, como é o caso do antes citado One Piece, de Eiichiro Oda.

Mas é isso que os jovens aspirantes a mangaká (ou você, chegarei lá) precisam fazer num primeiro momento: ter uma ideia, desenvolver sua história, desenhá-la, e então agendar uma reunião com um dos editores da Shueisha, por exemplo.

Obviamente, temos outras editoras na indústria de mangás, porém a editora Shueisha é a maior, e tem a revista mais popular (Shonen Jump), então iremos com ela.

A porta de entrada de como mangá é feito

Marcada a reunião com o editor, ele será o “juiz” da sua história, do seu trabalho. Você levará para ele um Name ou um Manuscrito, que são, respectivamente e grosseiramente, um rascunho feião e um mais bonito do seu mangá. O editor é a voz da experiência (ou deveria ser) que dirá se sua história é de fato original, interessante e divertida.

Mas eu acredito fortemente que não precisamos das três características juntas. Ainda mais por termos obras como Black Clover, que é basicamente Naruto + Fairy Tail, conquistando serializações nas revistas. Mas, bem, quem sou eu para julgar?

Com o veredito dado, o editor dará o famoso feedback ao aspirante a autor de mangá. Baseando-se nas palavras desse profissional do ramo editorial, o(a) futuro mangaká terá algumas opções.

A primeira, que é o que geralmente acontece, sua obra será refutada por grotescos problemas (geralmente) técnicos. Afinal, você não é profissional ainda né? Como diabos ia entregar algo que seja interessante o suficiente de primeira?

Mas tenha em mente: os editores sabem ver potencial. O editor chefe da Shonen Jump, Hiroyuki Nakano, deixou isso bem claro na entrevista abaixo.

Aconselho ver só entre 7min e 13 min de vídeo, para não dispersar

Editores são “responsa” quando o assunto é fazer mangá!

Geralmente, os editores trabalham no ramo há anos. Além disso, gerenciam diversas séries ao mesmo tempo. Sendo assim, eles são qualificados o suficiente para julgar trabalhos de novatos e novatas.

Ou pelo menos deveriam ser, mas as vezes temos casos como o Miura-san, de Bakuman, que mais atrapalha a desenvoltura do mangá do que ajuda.

Miura de Bakuman com o queixo na mesa tomando café

Só que se ele ver potencial, com certeza te passará uma orientação bacana para você consiguir melhorar e voltar ali no futuro. Porque, assim como nas indústria dos animes, a dos mangás também visa o lucro. Por isso, desperdiçar possíveis megahits não é do feitio deles.

A segunda opção, uma “variação” da primeira, seria o caso de o editor ver tanto potencial no seu trabalho que ele adoraria poder manter contato frequente com você enquanto vê sua evolução.

Muito provavelmente, você seria contatado por ele para poder concorrer em premiações de mangás, como o falecido Prêmio Tezuka, onde os aspirantes a mangakás costumam competir com one-shots uns com os outros para ver quais são as histórias mais relevantes e com maior potencial.

Conquistou o editor? Foi bem nos concursos? Agora seu mangá será feito! Ou não?

Desconheço o processo seletivo de outras editoras que não sejam a Shueisha, pois não encontrei muitos materiais bons e confiáveis sobre esse processo (mesmo em inglês).

Sendo assim, como já mencionado, irei usar a Shueisha como exemplo, editora da revista mais popular do Japão, a Weekly Shonen Jump (Dragon Ball, Naruto, Bleach… e lá vai pedrada).

Um mangaká, para começar a fazer de fato seu mangá, precisa ser serializado. O Microsoft Word desconhece essa palavra, mas ser serializado significa ser publicado com uma certa periodicidade em uma revista X.

Dentro da Shueisha temos muitas mais revistas do que apenas a Weekly Shonen Jump, pasmem. Esta citada, como o nome já diz (weekly = semanal, em inglês), possui uma periodicidade semanal.

Entretanto, temos outras “zasshi” (雑誌, japonês para “revista”) dentro da editora, tais como a Young Jump e a Ultra Jump, com periodicidades semanal e mensal, respectivamente.

Enquanto a Shonen Jump é para “garotos e adolescentes”, a Young Jump é mais voltada para “jovens e adultos”. Ou seja, além da ideia, você precisa também saber em qual tipo de revista faria sentido sua história ser publicada.

Esses toques virão do seu editor, mas é legal saber que a linguagem, as temáticas e até mesmo o traço do seu mangá influenciam diretamente em qual revista ele poderia ser publicado.

Há quem diga que para um mangaká japonês o maior sonho é ser serializado semanalmente, pois só assim sua série realmente tem grandes chances de bombar de vez.

Mas isso não é “a regra para o sucesso”, pois temos casos como o de Shingeki no Kyojin, que, mesmo sendo mensal, em sua época de boom, chegou a ultrapassar as vendas de One Piece por um período.

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Mãos na massa: tenho a ideia, o que preciso para fazer meu mangá?

Realmente é bem difícil conseguir explanar esse processo para você via texto, mas, hoje em dia, desenhar mangá não é exatamente como era anos atrás ou como pudemos acompanhar Mashiro, protagonista de Bakuman, em sua jornada para se tornar o maior mangaká da Jump.

Por mais que o processo continue sendo bem manual e repetitivo, e se não se cuidar você pode até contrair L.E.R (lesão por esforço repetitivo), as ferramentas necessárias vão variar de escritório para escritório, e de mangaká para mangaká, bem como de assistente para assistente.

Canetas, lápis, lâminas, réguas, tinta, estilete… enfim, o canal japonês DoKiDoKi Drawing pode mostrar melhor algumas das ferramentas mais utilizadas para desenhar mangá.

Ativa as legendas em inglês que da de entender bem o vídeo!

É claro que se você é um assistente, você terá de usar ferramentas compatíveis com a dos outros assistentes e do seu sensei, se não poderá haver uma discrepância significativa no trabalho final.

Contudo, atualmente, como já mencionado, a produção de mangás evoluiu “”bem”” com o tempo. Por isso, não temos mais um trabalho 100% lápis + nanquim + papel.

Mashiro Cansado de desenhar mangá em bakuman

Como mangá é feito então? Tudo “na mão” mesmo?

Bem, hoje, é muito mais comum esse trabalho ser um mesclado de digital + físico, pois isso otimiza (e muito) a produção de mangá num geral.

Na verdade, Reiji Miyajima, autor do mangá Rent a Girlfriend, publica semanalmente seu mangá na Weekly Shōnen Magazine e sua produção é praticamente 100% tenológica.

No vídeo abaixo, o canal Paolo formTOKYO nos mostra o estúdio de Reiji, onde ele e todos seus assistentes usam computadores, tablets e mesas digitalizadoras para automatizar e otimizar boa parte daquele trabalho exaustivo que vemos Mashiro apanhando para fazer em Bakuman.

Novamente, bote as legendas em inglês e seja feliz (ou não)

E facilita a produção de mangá?

Corrigir erros, arrumar borrões, mandar para o editor para um feedback mais ágil, tudo fica mais fácil com a tecnologia, por isso, Reiji diz acreditar que a maioria dos mangakás que ele conhece também trabalhe como ele. Porém Paolo, o apresentador, complementa, deixando claro que existem mangakás “de papel” por lá.

E Reiji trabalha para a Shonen Magazine, que é uma das maiores do Japão. Então, bem, ele deve conhecer muita gente da área. Mas, seria um pouco de exagero considerar que ele só conheça a nata dos mangakás? Tipo, aquela parcela mais “rica”?

Olha, talvez. Porque os mangakás que fazem sucesso conseguem obter um faturamento incrível (e por favor, não ache que faturamento é lucro, mas chegaremos lá).

Então, arcar com custos de vários assistentes e com ferramentas avançadas para produção do seu mangá certamente fica mais acessível do que para um mangaká pequeno, de uma revista pequena, pois este certamente faz tudo sozinho, e muito possivelmente, tem no máximo uma mesa digitalizadora para ele mesmo. E olhe lá.

Inclusive, no vídeo, o próprio Paolo fala que o estúdio de Reiji é “um pouco mais moderno do que o padrão de estúdios japoneses”.

Essa afirmação ficou bem subjetiva, mas eu realmente acredito que só os que fazem real sucesso conseguem montar um estúdio desse calibre.

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A rotina de um mangaká japonês

O dia a dia de um mangaká é muito apertado, com agenda super organizada e controlada, por menor que seja sua série.

Sendo assim, costuma ser uma rotina bem árdua de trabalho. Digo, a rotina de trabalho dos japoneses, por padrão, já é bem abusiva. Abusiva o suficiente para existir um termo chamado Karoshi, que significa “morte por excesso de trabalho”. É sério.

O canal Comix Zone trouxe uma planilha completa de um mangaká chamado Hiroshi Shiibashi (Yui Kamio Lets Loose). Além dele mostrar ela no vídeo, ele dá uma explanada (mesmo porque a planilha está em inglês).

Coloquei o vídeo aqui, mas logo abaixo coloquei uma foto da planilha caso você só queira ter uma noção mesmo.

Tempo livre de um Mangaká
Esse é o tempo livre dele 🙂

Nos comentários do vídeo, alguns viewers que moram no Japão se manifestaram, dizendo que essa é a rotina de um mangaká “gigante“, pois este não pode, de maneira alguma, furar muito seus prazos. A pressão das editoras é enorme!

Além disso, lá [comentários] o pessoal defendeu que mangakás menores conseguem viver uma vida praticamente normal, mesmo trabalhando bastante. À fim de exemplo, eu mesmo [André] trabalho aproximadamente umas 11 horas em média por dia da semana (metade disso nos fim de semana), então posso afirmar que não é nada tããão fora do comum assim.

Contudo, não conheço nenhum autor de mangá para poder trocar uma ideia pessoal com ele e entender melhor sua vida, mas, com base no histórico do Hiroshi Shiibashi [do vídeo acima] acredito que as rotinas de Masashi Kishimoto (Naruto), Eiichiro Oda (One Piece), Yashiro Togashi (Hunter x Hunter) e Tite Kubo (Bleach) devam ser algo por aí.

Ou ainda piores.

E quanto ganha um mangaká, afinal?

Eles ganham um valor X por página. Os semanais entregam cerca de 20 páginas por semana. Dá uma média de 80 páginas no mês. E não existe nenhuma resposta definitiva e única para essa pergunta, então, desculpe. Mas vamos lá!

Pesquisando (muito), eu consegui uns valores, porém variam muito de situação para situação. Um usuário do site Quora, mostra que uma pesquisa japonesa aponta que a quantia estimada que um mangaká recebe por ano é de 16 milhões de ienes.

Fazendo a conversão [do dia da publicação deste artigo], chegamos em algo como R$ 866.224,00 anuais, que diluídos em 12 meses, nos dá um faturamento de aproximadamente 72 mil reais/mês.

No vídeo do canal Paolo fromTOKYO de antes, o mangaká entrevistado, Reiji Miyajima, diz que seu primeiro trabalho pago foi um one-shot de 55 páginas que rendeu 9,000 ienes por página, totalizando 495 mil ienes no total (27 mil reais). Por 1 trabalho. Um.

Caramba. É muito dinheiro então, né!?

Bem, é. Mas não esqueça que faturamento não é lucro. No mesmo post do Quora, é explicado que os custos com assistentes e outros itens, por ano, é de aproximadamente 18 milhões de ienes. Ou seja, o mangaká teoricamente sai no vermelho se formos considerar somente o ganho por página produzida.

Sendo assim, a grana real que acaba entrando para os mangakás é através de royalties, que virão por meio da venda de qualquer tipo de material relacionado à “marca” (obra) daquele mangaká. As porcentagens de royalties variam até onde consegui pesquisar, mas a maioria dos sites calculam em cima de 10% do preço do produto.

Comprando um boneco do Goku, por exemplo, você está dando dinheiro para o Akira Toriyama. Ou, comprando um mangá de One Piece? Bem, dinheiro para o Oda! E assim vai.

Em outras palavras, na indústria dos mangás, a popularidade é realmente o que mais importa para a margem de lucro aparecer.

E caso você seja curioso sobre quando o Oda ganha, já que ele é o proprietário dos royalties de One Piece, disparada que mais vendeu mundialmente, eu tenho uns números legais aqui….

Quanto ganha Eiichiro Oda?

Em 2009, um relatório mostrou que dos 5,300 títulos existentes que venderam volumes, os 100 mais vendidos acumularam cerca de 3,8 milhões de reais em royalties, em média. Com exceção, claro, do primeiro lugar, One Piece.

E os outros 5,200 de títulos? Uma média de 2,8 milhões de ienes (151 mil reais no ano), que, talvez, não seja nem o suficientes para manter a produção viva.

Say Hello to Black Jack de Syuho Sato

Shuho Sato, autor de Say Hello to Black Jack, divulgou em seu blog pessoal em 2012, que ele ganhava cerca de 650 reais [na época] por página.

Segundo ele, a remuneração por página desenhada era de 30 mil ienes (650 reais), e como ele desenhava 40 páginas por mês, a renda mensal fica perto de 1.2 milhão de ienes (26 mil reais, em 2012).

Contudo, como ele precisa pagar os salários dos três assistentes, aluguel e as contas relacionadas ao escritório, ele gasta quase tudo. Então, novamente, o lucro real dele seria proveniente dos royalties pelos mangás vendidos.

Fazendo a matemática:

100 mil (vendas de um volume dele no ano) × 590 ienes (o preço médio de um volume na época) × 10% (taxa de royalties) × 2 (número de volumes lançados no ano) = 12 milhões de ienes

Hoje, esses 12 milhões de ienes valeriam uns 660 mil reais. Então temos um montante bem considerável, porém é preciso lembrar: a diferença entre um mangaká famoso e um não-famoso é descomunal. Shuhou Sato já é considerado MUITO famoso. Então ele já pode ser considerado a “nata” que mencionei lá na parte onde falo sobre o estúdio tecnológico de Reiji, autor de Rent a Girlfriend.

Mas e o mangaká MAIS famoso de todos?

Sobre Eiichiro Oda:

4.05 milhões (a venda média de um volume de One Piece na época) × 420 ienes (o preço de um volume na época) × 10% (taxa de royalties) = 170 milhões de ienes

Sim, 170 milhões de ienes. Por volume. Saem, em média, 4 volumes de One Piece por ano. Isso soma 680 milhões de ienes que, na cotação atual, dá 37 milhões de reais por ano.

Mas isso é o volume de vendas de One Piece de antes de 2009.

Mais recentemente, em 2014, um programa de TV japonês chamado Baka Furi fez uma projeção e análise de quanto o Oda ganhava, e chegaram no surreal valor de 3,1 bilhões de ienes por ano. Isso são mais de 170 milhões de reais, anualmente. MUITO, dinheiro.

Só que no fim, já demos uma olhadinha na rotina dos mangakás mais famosos, né? Quero dizer… Por aquela agenda, nem sobre tempo para gastar essa grana toda… talvez?

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A serialização: de fato como mangá é feito

Em suma, se sua história for interessante e você apresentar as qualidades necessárias para a serialização, você será “serializado” (rensai, 連載).

Mas quais “qualidades seriam” essas? Segundo Nakano-san [editor-chefe já citado da Jump], são: vitalidade e popularidade.

Ou seja, é avaliado pela editora se o(a) mangaká tem o comprometimento, a saúde e a resiliência para manter uma série, cuja popularidade é constantemente testada.

Em 2017 (e até hoje, acredito eu) o método mais utilizado para medir a popularidade do mangá é por um questionário que vem no final da revista, chamado de ToC (Table of Contents).

O que é ToC? Como funciona o Table of Contents?

O leitor pega esse questionário, vota nas séries que mais foram interessantes na semana, e enviam para as editoras, por correio.

Questionário da Shonen Jump em bakuman preto e branco

Com base nisso, as editoras vão montando seus rankings internos de popularidade, e os editores juntos com os mangakás entram numa batalha para se manterem o mais no topo possível, porque, na Jump, cerca de 20 séries são serializadas ao mesmo tempo.

Ou seja, 20 mangás são serializados e contabilizados dentro da Jump, mas existem algumas exceções na hora de ranquear os resultados de cada semana.

Capítulos com capas e/ou páginas coloridas, mangás que estrearam a pouco, e recém-estreantes, com menos de 10 capítulos, são avaliados dentro do ToC semanal, porém não participam do ranking numérico.

Ranking ToC da Shonen Jump revista de mangás

O motivo é simples, afinal, um mangá com páginas coloridas, ou então um estreante pode receber muito mais votos por estar “em destaque” nesta edição da revista.

Além disso, uma obra que está nos seus capítulos iniciais não é ranqueada porque ainda não deu tempo sair daquele “cliché começo episódico de missõeszinhas” da Jump. Desta forma, estes ficam de fora do ranking para não prejudicar o ToC.

Entendi melhor o ToC. Mas ele realmente funciona? Digo, as pessoas votam mesmo?

Por fim, com certeza a Shueisha é uma empresa que visa o lucro. O lucro vem de vendas. Se não é popular, não vende. Se não vende, não tem porque estar na revista.

Sendo assim, as séries que ficarem no fundo do ranking por semanas demais em sequência correm risco de serem canceladas.

Só que esse cancelamento pode ser algo bem brutal, podendo vir com avisos prévios de apenas 1 semana. Ou seja, você, mangaká, está lá trabalhando, sabe que seu mangá está mal, mas você ainda quer terminar sua história; não importa, se estiver mal por um tempo, sua série pode ser cancelada de uma semana para outra.

Dizem que foi o que aconteceu com Tite Kubo, de Bleach. Foi o que aconteceu em 2020 com Samurai 8, obra que Kishimoto fez após concluir de maneira mega-alongada sua série Naruto.

Eles cancelam mesmo. O próprio editor-chefe da Jump afirma isso no vídeo que postei lá em cima, do canal Only in Japan. No vídeo ele fala também que na Jump é permitido que a obra seja cancelada a hora que o autor quiser… mas, sinceramente? Todos já sabemos que isso é um grande migué.

Já é difundido no mundo inteiro toda a exploração que as editoras fazem em cima das obras que dão dinheiro. Muitos especulam que foi isso que aconteceu com Kubo e o Kishimoto antes citados, e também que foi isso que aconteceu com os autores de Death Note.

Em outras palavras, se está mal, é tchautchau (não sei porque fiz isso). Mesmo que seja meio impossível finalizar “bem” a história, ou mesmo que você estava preparando o terreno “para algo maior”, será cortada. Claro que pode ser negociado, mas só se convencer os responsáveis de que vai melhorar.

Racional? Talvez. Cruel? Muito.

Só que você não foi cancelado. Como a produção contínua de mangá é feita?

Sua série é um sucesso (ou pelo menos consegue se manter), então, você precisará seguir produzindo constantemente capítulos.

Os editores tem reuniões semanais com os mangakás, que podem variar de 1 hora a 6 horas. Nessas reuniões, são debatidos sobre o próximo capítulo, sobre o arco inteiro e até mesmo sobre o futuro do mangá em si.

Geralmente, o mangaká leva um Name para o editor, e com base nesse Name, os feedbacks chegam.

Nakano-san [editor-chefe] afirma que raramente os Name passam de primeira na revisão, por isso, o mangaká precisa refatorar o manuscrito e entregar algo que passe na revisão.

Passando na revisão: é hora de produzir mangá de verdade

bakuman anime mangaká

Como mangá é feito, bem como o processo de produção como um todo, podem variar bastante de mangaká para mangaká, principalmente porque quando eles são serializados, eles são obrigados a abrir uma empresa própria e operar como se fosse uma.

Os assistentes são funcionários deles, por exemplo. Toda a responsabilidade é do mangaká de entregar um ambiente completo (lugar, ferramentas) para o assistente trabalhar, e claro, para ele próprio.

Ou seja, mangakás não são “funcionários” das editoras.

Eles são prestadores de serviço. As editoras pagam pelo mangá que será feito, mas como o mangá é feito em si, vai depender do autor ou autora da obra.

Mas claro que as editoras possuem uma rede de contatos de assistentes para recomendar à seus novos mangakás (ou até mesmo aos mais velhos quando eles precisam).

Desta forma, a maneira de produzir pode variar bastante, ora temos profissionais como Eiichiro Oda (One Piece) que afirmou que seus métodos de produção são mais “análogicos”, ora temos profissionais como Reiji Miyajima (Rent a Girlfriend), que trabalham com um processo bem tecnológico e moderno, como vimos bem anteriormente.

Eu não sei o quanto “analógicos” podem significar “manuais”. E o Oda ganha muito dinheiro, como também já vimos, então acho que ele no mínimo tem um estúdio no naipe do Reiji, né?

Como o mangá chega ao leitor final?

No Japão, os mangás são distribuídos via revistas com periodicidades diversas. Ao comprar uma dessas revistas, você irá se deparar com algo que se parece, literalmente, com uma lista telefônica aqui do Brasil. Talvez se você for novo demais, nem conheça essas listas, mas é algo assim:

A Weekly Shonen Jump, que foi usada como exemplo ao longo do artigo, é publicada semanalmente, e ela traz cerca de 20 capítulos de 20 séries diferentes. Em suma, é um grande compilado com todos os capítulos da semana, de vários mangakás diferentes.

“Nossa eu ia colecionar isso com certeza!”

Porém, não se engane: as pessoas não colecionam a Jump em si.

Porque, bem, segundo um vídeo do canal A Vida por outros Olhos, isso ocuparia MUITO espaço na sua casa. Ainda mais que no Japão, o m² é bem valorizado.

No mesmo vídeo, o apresentador explica que essas revistas semanais (as mensais custam um pouco mais) custam (em 2015) algo em torno de 255 ienes, que, para a cotação do dia que escrevi esse artigo, dá algo em torno de 13,70 reais. Mas bem, o dólar chegou a quase 6 reais em 2020, então não sei mais de nada…

No entanto, segundo o editor-chefe da Jump, as revistas são feitas para custar o menor valor possível, porque a intenção da editora não é lucrar com essas revistas, mas sim com os tankōbon e outros produtos relacionados às obras, como action figures, por exemplo.

Inclusive, as zasshi são feitas com material reciclável, e o motivo para elas terem páginas meio azuladas ou rosadas é simplesmente para esconder a sujeira do papel reciclado.

Ou seja, para baratear e vender ainda mais barato.

Tankōbon” é o que conhecemos aqui no Brasil por “volume”. Esses tankōs sim são colecionáveis, pois trazem vários capítulos de uma série específica aglomerados, e possuem uma qualidade material superior que as zasshi. Os tankōs por lá custam cerca de 500 ienes (~27 reais).

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Como mangá é feito no Brasil?

O canal Mais.Q.Sushi fez uma matéria em vídeo bem legal que mostra como a produção dos mangás na editora JBC, uma das maiores do ramo, é feita aqui no Brasil.

No vídeo, Marcelo Del Greco, supervisor de conteúdo na editora JBC, explica que o primeiro passo é receber o material original oficial da editora japonesa. A Shueisha, por exemplo.

São feitas cópias do material recebido, e estas são enviadas para tradutores de fora da editora. Os tradutores reenviam o material traduzido, e a editora mescla o texto traduzido com as páginas.

O mangá passa pela etapa de diagramação, onde o texto é ajustado e a fonte é estabelecida, e, depois, é feita uma revisão mais rigorosa, pelo editor-chefe. Depois, volta para a mão do Marcelo, onde é revisado mais uma vez para evitar problemas de fonte, ritmo ou diagramação. Nesta etapa, o material revisado se chama “boneco” (?).

Boneco do mangá de Little Witch Academia
“Boneco” de Little Witch Academia

Após isso tudo, e várias revisões, o mangá chega para a última etapa, onde tudo é colocado no .pdf final que será enviado para impressão. Mas, claro, somente depois de passar por uma aprovação final da rígida editora japonesa.

Enfim, aprovado, plotado, o material volta para mais uma revisão (mas essa é a definitiva). Se não houverem erros, o mangá está feito e pronto para ser impresso em terras brasileiras.

Fiz um resumão, mas acho interessante você assistir o vídeo para um entendimento mais completo de como funciona uma editora como a JBC.

E para fechar o tópico, deixo à vocês um vídeo-reflexivo-explicativo do canal Video Quest sobre o mercado nacional de mangás. Faço das palavras do Léo Kitsune as minhas, pelo menos na maioria dos apontamentos.

E temos mangakás brasileiros lá no Japão?

Mangás brasileiros em terras brasileiras ficarão para outro artigo.

Mas, sobre artistas nacionais na terra do sol nascente, surpreendentemente, temos sim! Ou seja, brasileiros que foram para o Japão com a ambição de terem seus mangás serializados. Porém, não é uma tarefa trivial, como bem vimos ao longo do artigo.

Tirando a barreira linguística, ainda temos toda a barreira cultural, que, para quem não sabe, é imensa. Os costumes dos japoneses não se parecem em nada com os brasileiros, mas disso você provavelmente já tinha noção.

Sendo assim, como você, mangaká brasileiro, vai conseguir produzir um mangá que agrade o povo japonês, se você provavelmente nunca teve um contato direto com a cultura deles?

O mangá é, primeiramente, fruto da cultura, bem como todo e qualquer tipo de arte. E como vimos até então, nas revistas mais populares você precisa se manter famoso dentro do Japão para conseguir se consolidar como um mangaká oficial, que consegue de fato tirar sustento e lucro de seu mangá.

Thiago Furukawa Lucas autor do mangá e light novel No Game no Life

Mas, apesar dos apesares, o primeiro mangaká brasileiro que fez sucesso por lá foi Thiago Furukawa Lucas (pseudônimo, Yuu Kamiya), que é um ilustrador e escritor brasileiro.

Ele foi o primeiro mangaká brasileiro a fazer sucesso no Japão. Sua obra de maior renome é, sem dúvidas, No Game no Life.

Além de No Game no Life, seu trabalho de ilustração mais conhecido é Itsuka Tenma no Kuro Usagi, uma novel escrita por Takaya Kagami.

Entretanto, o real sucesso veio com a sua light novel de autoria própriaNo Game No Life, que foi adaptada para anime. Ele é casado com Mashiro Hiragi, que adaptou No Game No Life para mangá. Então, é, foi a esposa dele que pegou o mangá para fazer de verdade.

Ok. Mas ele tem descendência japonesa, né? Foi mais fácil quebrar a barreira do idioma e da cultura!

Talvez. Desconheço as condições e desafios pelos quais o Thiago-sensei precisou passar para conseguir criar uma obra de real sucesso como foi (e ainda é) No Game no Life. E vale lembrar que, na verdade, a série principal é uma light novel. Será que chamam autores de LN de “mangaká” igual, aliás? Não sei.

Só que isso de forma alguma desqualifica o esforço que ele colocou para chegar onde chegou hoje.

Porém, além de Thiago, temos outro mangaká brasileiro que se deu muito bem na indústria de mangás japonesa. Seu nome, Ângelo Vasconcelos Levy.

Ângelo Vasconcelos Levy autor de mangá no Japão

Ângelo, no Japão, atende pelo pseudônimo de Angelo Mokutan (mokutan = carvão, que é o sobrenome do pai dele). Diferente de Thiago, Angelo não possui descendência japonesa.

Nas palavras dele, “se tornar um artista de mangá no Japão é tão difícil quanto se tornar um jogador de futebol no Brasil”.

Numa entrevista com o G1, Ângelo conta que começou a aprender japonês aos 14 anos, fez o mestrado em animação no Japão e, na sequência, conseguiu um emprego na área de tecnologia da informação.

Participando de feiras e eventos, ele conheceu seu atual chefe, um editor que buscava novos talentos e que achou o trabalho do brasileiro diferente e interessante (lembra das qualidades?).

No vídeo é falado bastante sobre a obra

Em 2018, segundo o site Sympla, Ângelo mantinha sua carreira como mangaká com as publicações: a série Meu Diário Zen na revista President Next, Vocabulário Zen, no nippon.com, e A Condenação de Leonora às Bestas (do vídeo acima) na revista Comic Jingai. Seus trabalhos foram publicados em 8 idiomas.

Hoje, você, brasileiro(a), pode publicar seu mangá na Shonen Jump!

Olha que maravilha: a partir de 2020, vocês, queridos leitores, poderão sim se inscrever num japonês concurso chamado Tezuka Manga Contest, que ocorre duas vezes no ano, sediado pela gigante editora Shueisha.

Em 2020 o concurso estará tendo sua 100ª edição, e o intuito é encontrar novos talentos no que tange a mangá. Além disso (e mais importante) nesta edição o evento foi aberto para o mundo inteiro! Pois é, você, aqui do Brasil, pode participar desse concurso. Interessante, né?

Mais informações podem ser obtidas no site Medibang, porém estão em inglês. Mas, bem, inglês é o mínimo que você precisaria para conseguir conversar com os organizadores do evento, né? Fora que os trabalhos feitos fora do Japão só serão aceitos em inglês, espanhol, coreano, chinês simplificado e chinês tradicional.

Sendo assim, você é brasileiro(a) e deseja participar, precisará ter domínio de alguma dessas línguas, além do próprio japonês, é claro.

Entre os juízes dessa edição especial do concurso, estão mangakás renomados como Akira Toriyama (Dragon Ball), Eiichiro Oda (One Piece), Kazue Kato (Blue Exorcist), Kohei Horikoshi (My Hero Academia) e Takehiko Inoue (Slam Dunk).

Ainda, teremos integrantes do estúdio de animação Tezuka Productions (que mencionei lá na história dos mangás) compondo o time de jurados.

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Finalizando…

Neste artigo aprendemos como mangá é feito, quais são as ferramentas necessárias para fazer mangá, qualidades necessárias para ter seu mangá publicado numa grande editora, a rotina de um mangaká e quanto esses profissionais ganham…

Além disso, vimos por cima como funciona a publicação de mangás no Brasil, e agora você tem noção de que temos sim autores de mangá no Japão que fazem sucesso e são brasileiros.

A indústria de mangás é muito complexa, como bem expliquei lá na introdução do artigo. Contudo, se parar para analisar, todos os pontos dela fazem sentido para o funcionamento como um todo. Mas isso não quer dizer que a maneira como fazem é de fato a mais efetiva.

Os ToC por exemplo… acho que já passou da hora de sair de um questionário de papel enviado por correio, né?

Ainda, é bem ressaltar que a produção de mangás envolve muita gente, muito dinheiro, e, principalmente, muita cultura. Os mangás estão inseridos na sociedade japonesa já tem muito tempo.

Mas, sendo sincero, mesmo eu, que moro literalmente do outro lado do planeta, não consigo mais me imaginar vivendo sem esse tipo de conteúdo para consumir. Eu amo mangás. E provavelmente você também, já que leu até aqui.

Estamos ainda vivenciando certas mudanças, como o aplicativo MANGA+, da Shueisha, que permite o consumo digital de mangás.

E também, mudanças dentro do próprio editorial, como casos recentes de Demon Slayer e The Promised Neverland, obras que realmente vão acabar quando os autores querem, passando longe de sofrer prolongamentos forçados como vimos acontecer no passado…

Espero que tenham gostado sobre esse geralzão completão de Como mangá é feito! Caso sim, deixa aquele “curtir” ali em baixo, e comenta qual ponto do artigo mais chamou sua atenção!

Fontes:

  1. Comix Zone: A ROTINA ABSURDA DE UM MANGAKÁ
  2. DoKiDoKi Drawing: TOOLS of JAPANESE MANGA Artist
  3. Vida por outros Olhos: Mangás! Como São as Revistas em Quadrinhos do Japão
  4. Pipoca e Nanquim: Como são feitos os MANGÁS no Japão | Pipoca e Nanquim Especial #21
  5. Paolo fromTOKYO: Day in the Life of a Japanese Manga Creator
  6. Only in Japan: Japan’s Manga Industry Uncovered | One Piece, Naruto, Dragon Ball, Tsubasa (The SHONEN JUMP Story)
  7. MaisQSushi: Como é feito um mangá no Brasil?
  8. Vídeo Quest: Reflexões sobre nosso Mercado de Mangás
  9. How is a Manga made? (“Como mangá é feito?”)
  10. Quanto Eiichiro Oda ganha com One Piece?
  11. Como é o cronograma de trabalho de Eiichiro Oda?
  12. O desenhista brasileiro que conseguiu espaço no mundo do mangá
  13. BATE-PAPO COM O MANGAKÁ – ANGELO MOKUTAN
  14. Famoso concurso da Shonen Jump aceitará mangás feitos fora do Japão
  15. What is “TEZUKA MANGA CONTEST”?
  16. CrasConversaOficial: O verdadeiro MANGAKÁ BRASILEIRO: Angelo Mokutan

Escrito por

André Uggioni

Fundador

Vendedor | Prolixo

Criciúma - SC

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