Análise

Feng Shen Ji é bom? Vale a pena ler o manhua? | Crítica

O épico universo dos deuses e cultura chinesa, pt.1 de Feng Shen Ji
20 minutos para a leitura
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Feng Shen Ji é um manhua publicado entre os anos de 2010 e 2011, escrito por Zheng, Jian He e ilustrado por Cheng, Kin Wo e Tang, Chi Fai.

Para quem não conhece, os ”mangás” da China recebem essa denominação (manhua). A obra, apesar de pouco conhecida, é aclamada no universo geek, e possui uma nota de 8.34 no MyAnimeList.

Feng Shen Ji foi dividido em 3 partes, cada qual contando um arco diferente da história. A primeira parte, começa com a rebelião e queda do imperador de Zhao, Zi Shou, e termina com o amadurecimento de seu filho, Wu Geng.

Nessa análise, o foco será sobre essa primeira parte da obra. Ou seja, de seus primeiros 38 capítulos.

Os deuses chineses

Algo similar em muitas culturas, tanto do ocidente como do oriente, são as crenças em deuses (politeístas) ou em um único Deus (monoteístas).

É nesse universos de múltiplos deuses que Feng Shen Ji se passa.

Os pilares da mitologia chinesa são formados por três religiões diferentes: o Confucionismo, o Budismo e o Taoísmo.

O panteão chinês é um reflexo direto da sociedade chinesa (ou seria o contrário). Os deuses se organizam em uma sociedade celeste, tendo até mesmo um corpo administrativo hierarquicamente organizado.

Deuses-chineses religião pintura

Cada ”ministério” tem seus ”líderes” e seus ”subordinados”, cada qual com suas funções. Postos podem ser conquistados ou sucedidos, deuses podem ser ‘depostos’ e substituídos por outros mais competentes para executar a função.

Outro traço interessante da mitologia chinesa é que a origem de boa parte dos deuses não é divina, ou seja, muitos deuses já foram humanos um dia, e, após a morte, tornaram-se deuses – geralmente devido às suas virtudes ou boas ações praticadas em vida.

Há muitos deuses na cultura chinesa. Existem os mais diversos deuses para as mais diversas coisas: deus do arroz, da felicidade, do trovão, da riqueza, do vento, etc.

Feng Shen Ji não é para todos

Começo essa análise dizendo que o manhua Feng Shen Ji não é para todos.

Primeiramente, para quem não entende do que se trata, pode se sentir perdido no começo da história, pois são muitos personagens surgindo a todo momento, muita informação, muitos deuses, tramas politicas, etc. Desta forma, até o leitor se situar leva uns bons longos capítulos.

Outro ponto de Feng Shen Ji, que pode afastar potenciais leitores é o fato de 80% das páginas serem repletas de diálogos.

Muita gente pode ver isso como uma barreira, já que muitos estão acostumados a mangás convencionais de ação, em que a maior parte das páginas são repletas de ação e porrada (não que Feng Shen Ji não tenha isso, mas deu para pegar a analogia).

Dialogo-de-Feng-Shen-Ji

Outro ponto que vale ser ressaltado é a quantidade de personagens que aparece.

São muitos nomes para se decorar, e, como não estamos habituados ao idioma chinês, acaba sendo difícil lembrar quem é quem no meio dos diálogos.

Vou dar alguns exemplos: Wu geng, Tian, Shin Xing, Zi Yu, Bai Cai, Zi Shou, Da ji, Fu Yi, Ji Quiao.

E esses nomes são só uma parcela dos personagens que aparecem nos 38 capítulos de Feng Shen Ji.

Contudo, se você conseguir transpor essa ”barreira”, a riqueza desse universo te recompensará com a história mais épica de deuses contra humanos que você verá.

Os personagens são bem desenvolvidos, os poderes criativos, as artes visuais são incríveis e tem muita porrada. Muita. Porrada.

A Jornada do Herói

Esse manhua não tem uma classificação tão bem definida quanto os mangás japoneses, mas me arrisco a dizer que Feng Shen Ji seria um shounen com alguns elementos seinen.

E claro que, como em todo shounen, a Jornada do Herói se faz muito presente por aqui. Na primeira parte da história o protagonista completa 7 das 12 etapas da jornada do herói, isso ao meu ver. Cabe outras interpretações. Clique aqui se deseja aprofundar os conhecimentos sobre a famigerada Jornada.

Para mim, a melhor parte de Feng Shen Ji foi justamente esse caminho percorrido para o desenvolvimento do personagem principal, Wu Geng.

Ele começa com um pirralho mimado e egoísta, e termina como um homem cheio de virtudes e com um grande senso de justiça.

A mudança de personalidade do protagonista pode ter parecido abrupta para alguns, mas ela se fez necessária, porque na situação em que ele se encontrava, ou ele mudava, ou ele perderia a vida.

Além disso, mesmo ele tendo todos os defeitos do início de sua jornada, burro ele nunca foi.

Wu_Geng, de Feng-Shen-Ji

Entretanto, como todo bom shounen, há certas conveniências narrativas que acabam incomodando.

Tipo aquele poder oculto é que é despertado no último momento de uma batalha até a morte, ou um personagem que surge do nada para salvar o dia que estava praticamente perdido.

O melhor de Feng Shen Ji

O que mais me impressionou em Feng Shen Ji foi o uso inventivo dos poderes e habilidades dos deuses e humanos.

Os deuses possuem poderes divinos e os humanos desenvolveram uma técnica chamada “Aura de Materialização”, arte que apenas alguns poucos conseguem dominar.

Deuses-Feng-Shen-Ji lutando

Quando você tem um manhua full color, o melhor que você pode fazer é tirar proveito dessa vantagem e se posicionar a frente dos mangás convencionais (que em sua maioria são em preto e branco).

E como o autor fez isso? Fazendo com o que o poder divino mais forte dos deuses estivesse diretamente ligada ao colorido do manhua, esse poder é a Monocromia (aquilo que apresenta uma só cor).

Ao usar esse poder, a energia vital de toda área afetada é consumida, assumindo uma cor opaca e sem vida.

Monocromia em Feng Shen Ji

O uso desse poder é incrivelmente criativo, e ao mesmo tempo imponente.

Toda vez que algum personagem usa a Monocromia, é possível sentir a ameaça e força que esse poder carrega.

Porém os humanos não ficam para trás no quesito poder.

Aqueles que dominam a técnica Aura da Materialização, conseguem bater de frente com os grandes deuses – e até mesmo derrotá-los.

Apesar de apenas dois personagens usarem essa habilidade na primeira parte de Feng Shen Ji (e nessa análise é somente essa primeira parte que está em pauta), elas foram suficientes para aguçar nossa curiosidade.

Cada cena que elas surgiam, o ”hype” ia as alturas, e eu queria mais “tempo em ‘tela” do uso desse poder de tão incrível que ficou.

Aura-de-materialização em Feng Shen Ji

Ainda há mais elogios?

Outro ponto positivo é que muitos personagens não são unilaterais.

Sabe aquele personagem que é o malvadão, e só sabe fazer malvadezas e não tem outra camada além dessas (tipo o vilão de BLACKFOX, citado pelo André)?

O desenvolvimento de personagem em Feng Shen Ji é muito bom, sendo que, a primeira vista, um personagem parece ser uma coisa, mas ao desenrolar da história você acaba conhecendo outras camadas.

Isso mostra que, mesmo ele sendo mal, você ainda é capaz de criar certa empatia pelo mesmo.

Uma arte única e chamativa

Apesar de ser um padrão dos manhuas, Feng Shen Ji é full collor, o que isso por si só já é um ponto positivo.

Mas Feng Shen Ji consegue ir além e entregar uma experiência completamente diferente.

Sua arte é incrível, sendo que em muitos pontos o artista usa uma técnica diferente que faz as imagens parecerem muito mais realistas , tornando-as quase vivas.

Tian-Feng-Shen-Ji

Além do design de personagem ser excelente, o nível de detalhamento do ambiente é fora de série. E tudo se torna ainda mais incrível somado a arte colorida.

Arte-Feng-Shen-Ji-3

Na minha opinião, o único ponto negativo de todo esse show de imagens é o sangue.

Em muitas cenas em me lembra o sangue de HQ’s antigas, aquele sangue é um vermelho vivo e de certa forma não tão bem desenhado, o que acaba destoando o resto da arte algumas vezes.

Sangue-Feng-Shen-Ji-1-1

O famoso Deus Ex Machina

Para mim, o grande defeito dessa primeira parte de Feng Shen Ji é o uso excessivo do Deus Ex Machina. Para quem não conhece muito bem o termo, ou que quer uma ilustração para compreender melhor o que vou dizer, clica nesse link.

É fato que esse recurso é muito utilizado em qualquer tipo de narração. Em shounens, mesmo nos menos conhecidos, este elemento acaba sendo esperado por se tratar de uma fantasia.

Sendo assim, muitas vezes os limites do desenvolvimento de poder daquele universo não tem limites, tipo o aclamadíssimo anime Dragon Ball, no qual se tem a transformação de Super Sayajin 1,2,3,4,5,6… assim vai, até secar a fonte de dinheiro da obra e poder sempre trazer vilões mais fortes.

Muitas vezes acabamos relevando esse tipo de narrativa em nome do entretenimento, mas, outras vezes, esse tipo de recurso pode acabar com algo muito importante para a obra, a sensação de perigo.

Como se preocupar com um personagem, sendo que a gente sabe que vai surgir alguém para salvar o dia, um novo poder será despertado ou as esferas do dragão serão reunidas?

Feng Shen Ji usa repetidas vezes o efeito Deus Ex Machina, mesmo que algumas vezes as consequências vão ter um certo peso narrativo.

É poder que é tirado do limbo, personagem que aparece do nada para salvar o dia com um justificativa rasa, remédio milagroso que cura até o mais enfermo e até personagem que não morre mesmo tendo tudo para morrer…

Capa-Feng-Shen-Ji protagonista

Entretanto, apesar desse pobre recurso narrativo, Feng Shen Ji é incrível e possui uma história rica e bem desenvolvida.

Finalizando…

Acredito que Feng Shen Ji é um marco na história dos manhuas, sendo referência até hoje de uma obra de qualidade. O título conquista todos que curtem esse universo de deuses contra humanos.

Relembrando que essa análise é apenas da primeira parte da história. Ainda há mais duas pela frente. Existe uma grande quantidade de deuses e poderes divinos que ainda vão ser explorados na obra, além, é claro, da Aura de Materialização dos humanos.

Feng Shen Ji é, na minha opinião, indispensável para todos aqueles amantes de mangás, animes e cultura oriental num geral, e é ainda mais imperdível para aqueles que assim como eu são aficionados pela cultura chinesa.

E aí, o que vocês acham de Feng Shen Ji? Super valorizei a obra ou é no mínimo coerente o meu pensamento de que é indispensável?

Deixe nos comentários sua impressão da obra para podermos trocar uma ideia. Caso você conheça, e não gostou, vamos tentar o clássico “Change my mind“.

Escrito por

Pedro Bernardes

Profissional de Educação Física

Cult | Atleta | Leitor compulsivo

Belo Horizonte - MG

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