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A Jornada do Herói: os 12 passos para um roteiro matador!

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Você saberia me dizer o que One Piece, Dragon Ball, Naruto, Harry Potter, Senhor dos Anéis, Batman, Jogos Vorazes e Yu Yu Hakusho tem em comum? Até onde pude refletir, somente um elemento se dá presente em todos esses títulos de renome. Falo da Jornada do Herói.

A “Jornada do Herói” (também conhecida por “Monomito”) é um conceito de eventos cíclico utilizado em diversas obras no mundo inteiro. Esses conceitos tendem a conduzir um roteiro ao sucesso. Ou seja, acabam tornando uma história num mito ou lenda dentro da sociedade.

A filosofia por trás dela afirma que todas as histórias, ou pelo menos a maioria delas, possuem traços e elementos em comum.

Sendo assim, a Jornada do Herói pode ser lida como uma “fórmula pronta de roteiro”, que, apesar de ser antiga, é utilizada até hoje, porque funciona.

O conceito do “Monomito” foi estudado, criado e descrito e por Joseph John Campbell, um antropólogo mitologista, escritor e professor, no seu livro “O Herói de Mil Faces”, originalmente publicado em 1949.

Após analisar grandes lendas da sociedade humana, tais como a história de Moisés, de Jesus Cristo e de Buddah, Campbell escreveu que a Jornada do Herói é um ciclo de 18 estágios pelos quais todo herói passa ao longo de sua jornada.

Após certo tempo, Christopher Vogler, um famoso roteirista de Hollywood, estudou à fundo a pesquisa de Campbell, e, com base nela, Vogler desenvolveu uma síntese do trabalho do antropólogo.

O hollywoodiano resumiu os 18 estágios em apenas 12 estágios, e, hoje, essa “versão resumida” do Monomito é tida a melhor forma de aplicar a filosofia descrita por Campbell no século passado.

Neste artigo da Cúpula do Trovão, trago a você esses 12 passos, juntamente com exemplos do mundo dos animes e mangás!

Espera aí!

Antes de ler, eu gostaria de propor uma dinâmica interessante para você.

Peço que pare e pense em um título que você goste muito. Guarde ele na mente. Ah, claro que essa obra precisa ser um megahit dentro do mundo dos animes e mangás. Estamos na Cúpula, afinal rs

Pense em elementos presentes no título pensado que se enquadrem em cada um dos 12 passos a seguir.

Ao final da postagem, deixe um comentário falando o motivo do seu anime se enquadrar (ou não) nesses 12 passos.

O resultado com certeza irá surpreender você! Praticamente todos que eu pensei não fugiram da Jornada do Herói. É impressionante como ela é certeira…

Agora sim, vamos lá!

1 – Mundo Comum

Aqui é onde tudo começa. O “mundo comum” é a ambientação inicial que costuma introduzir o protagonista e as pessoas com quem ele se relaciona, bem como a sua rotina.

Nesse começo, tenta-se deixar claro que o dia-a-dia desse personagem é pacato e desprovido de grandes eventos. Igual o da maioria das pessoas na vida real.

Além disso, aqui os jeitos e trejeitos do protagonista são expostos. As vezes até mesmo por um narrador, quando os elementos narrativos não dão conta (ou o roteirista, né).

Tal exposição evidencia suas qualidades e defeitos, forças e fraquezas, enfim, tudo aquilo que permita que o público crie uma certa empatia para com ele.

A moral é fazer a audiência acabar se identificando com o “herói”. Porém, tendo sempre em mente que o foco é tornar fácil de o público querer acompanhar a história desse tal personagem (ou até mesmo querer ser ele).

Em Dragon Ball Z, pode-se dizer que, apesar de ser uma mistura de sayajin com humano, o Gohan levava uma vida humana “normal” e “pacata” no começo da história.

Em Yu Yu Hakusho, o “mundo comum” seria o dia a dia escolar do protagonista, Yusuke, enquanto ele fazia coisas normais de colegiais normais.

2 – Chamado à Aventura

Agora a jornada de fato se inicia. Normalmente, o protagonista começa se deparando com uma situação que faça com que ele saia da sua zona de conforto, ou seja, do seu “mundo comum”.

O novo desafio não precisa ser algo muito grandioso, basta que force o herói a sair de sua rotina. Sintetizando, precisa ser algo que estimule mudanças no personagem ou na maneira como ele vive.

Essa etapa costuma ser introduzida através de algum tipo de ambição, seja ela conquistar um título, obter força para proteger um ente querido ou até mesmo algo que ele precise fazer, simplesmente porque ele quer.

A ideia principal é que seja algo que ele realmente precisa fazer/manter/obter.

Olhando do ponto de vista do Gohan, em Dragon Ball Z, o chamado se deu no momento em que o Goku morre na luta contra o Raditz. Por conta disso, o Gohan precisa começar a treinar para ficar mais forte e encarar a sua nova realidade.

No caso de Yu Yu Hakusho, a hora em que o Koenma e a Botan oferecem ao recém falecido Yusuke a chance de se tornar um detetive espiritual se encaixa perfeitamente como um “chamado à aventura”.

3 – Reticência do Herói ou Recusa do Chamado

É mais do que normal que, ao se deparar à algum tipo de desafio, nós, seres humanos normais, tenhamos medos e angústias.

A recusa ou reticência costuma se dar devido ao protagonista comparar sua vida normal, seu “mundo comum”, à toda a incerteza e perigos que uma nova aventura trará.

Sendo assim, o herói primeiramente decide não enfrentar a jornada. Ele opta por se manter em sua zona de conforto, recusando o “chamado à aventura”.

Essa terceira etapa não se dá presente em toda obra que aborda a Jornada do Herói, vale dizer. Mas ela com certeza está em muitas delas.

Acho que todos lembram que Gohan não quis enfrentar seus medos logo de cara. O garoto era um bebe chorão e demorou muito para digerir o acontecido, o que é normal, já que ele era só uma criança.

Por outro lado, o Yusuke recusa o tal chamado porque não viu vantagem em reviver, já que ele pensava não fazer falta para as pessoas.

4 – Encontro com o mentor ou Ajuda Sobrenatural

É chegada a hora. O herói precisa enfrentar o desafio. É o destino dele, afinal. Entretanto, ele não dispõe dos atributos necessários para superar os obstáculos da jornada.

Por isso, é introduzido um “mentor”, e este será responsável por proporcionar ao protagonista algum tipo de incentivo, um empurrão.

O mentor deve ser a centelha que acende a fogueira dentro do herói. Será ele quem ensinará ao herói como evoluir em suas áreas necessitadas.

É importante ressaltar aqui que o mentor não é necessariamente uma pessoa. O “mentor” pode ser algum tipo força sobrenatural, um objeto específico que instigue o protagonista ou até mesmo o mundo cruel em que a história se passa.

Em síntese, a ideia é que esse “mentor” ou “mestre” seja o gatilho para o protagonista conseguir enfrentar os desafios que estão por vir.

Essa parte costuma ser muito marcante em todo bom shounen de batalhas. Seguindo com nossos exemplos, no caso de Gohan, seria o Piccolo, sem dúvidas. No caso de Yusuke, é a velha Genkai.

Para não passar em branco, no caso de Sword Art Online Alicization e de No Game no Life, por exemplo, os protagonistas aprendem com o mundo em si, e não com uma “pessoa”. Sendo assim, nestes casos, o ambiente e a forma como ele funciona são os mentores dos heróis.

5 – Cruzamento do Primeiro Portal

Agora, o herói está preparado para cruzar a fronteira entre o “mundo comum”, adentrando num “mundo desconhecido “. Um lugar de aventuras, onde as coisas são novas para ele.

Novamente, pode-se levar esse passo de forma mais metafórica, porque o novo ambiente não precisa ser um local físico. Basta que seja algo desconhecido e desafiador.

Pode ser uma reviravolta na trama, um novo poder alcançado ou uma literal mudança física de ambiente, tanto faz.

Em DBZ, há aqueles que defendem que este passo só foi acontecer lá em Namekusei para o Gohan. Eu discordo, porque a rotina dele já se tornou bem “anormal” desde que começou seu treinamento para combater a primeira visita de Vegeta na Terra. Sendo assim, para mim, foi nesse ponto o cruzamento do primeiro portal do filho do Goku.

Yusuke, por sua vez, foi no momento em que ele pela primeira vez consegue ver os fenômenos paranormais e seres sobrenaturais do mundo espiritual, e aí começa suas aventuras com o Kuwabara.

Gohan, a transformação
Yusuke começando as aventuras com Kuwabara

6 – Provações, aliados e inimigos ou A Barriga da Baleia

Seguindo em frente, o protagonista parte em direção à conclusão de seus objetivos, porém ele começa a se deparar com diversos desafios que irão por em prova tudo aquilo que ele desenvolveu a partir do encontro com o mentor.

A grande ideia aqui é lapidar o herói, de modo que ele amadureça psicológica e fisicamente falando.

Por que ele precisa se aprimorar? Porque o pior ainda está por vir.

Geralmente, também é nesta etapa da Jornada do Herói que o protagonista começa a perceber quem são as pessoas em quem ele pode de fato confiar e quem são os seus inimigos de verdade.

Agora, os exemplos são vários. Qualquer tipo de dificuldade superada pelos heróis ao longo da jornada pode ser considerada como uma forma de ele “evoluir”, no fim das contas.

Para não me estender muito, poderia dizer que, tanto para Gohan quanto para o Yusuke, essa etapa está ligada a sempre que eles acabam ficando mais fortes e maduros após derrotar um inimigo, bem como quando eles criam novos laços com entes queridos e marcam os antagonistas.

7 – Aproximação

A tensão sobe nessa etapa. É o momento da breve “pausa antes da tempestade”, sabe?

À esse ponto, o herói começa a repensar seu conceitos, refletindo sobre as ações tomadas até então em sua aventura.

Seus questionamentos iniciais vem à tona, e isso costuma enfraquecer o protagonista a nível de, muitas vezes, se tornar obrigatório o uso de algum tipo de abrigo ou esconderijo.

Além disso, mesmo que não haja um conflito iminente aguardando o protagonista, essa “pausa” é necessária para que o público perceba a grandiosidade do próximo passo da Jornada do Herói.

Uma das partes que melhor define essa etapa são os momentos de tensão antes da batalha final contra o Freeza. Naquela parte que Gohan e Kuririn percebem o quanto são imponentes e só conseguem ficar escondidos nas montanhas de Namekusei.

Em Yu Yu Hakusho, pode-se dizer que foi a angustiante parte da caverna, onde Yusuke precisava dominar a doutrina reiko-hadoken da velha Genkai, e quase morreu no processo.

Gohan e Kuririn, sendo inuteis

8 – Provação difícil ou traumática

Agora, a tempestade chegou (CúpulaCast?!). Enfim é a hora da verdade. É a hora de nosso herói enfrentar seu maior desafio,. E tentar sair vivo dele, claro.

Eu disse “tentar” porque, na verdade, muitas vezes a “provação difícil” não consiste só num obstáculo complicado. Ás vezes, essa etapa é traumática à ponto de realmente matar o protagonista.

Essa morte (metafórica ou não) é necessária para que o herói possa cumprir seu destino.

Tal “provação difícil” pode ser um inimigo muito poderoso, uma situação de extremo risco ou uma tomada de decisão muito importante.

Independente de qual situação for, ela certamente irá pôr todas as habilidades do herói à prova. Isto é, nesse momento ele precisará reunir todo o conhecimento, poder e experiência adquirida durante a jornada.

A grande moral dessa etapa é que o herói sofra algum tipo de mudança crítica, ou melhor dizendo, uma transformação.

Como já dito, não precisa ser literalmente a morte, mas tem que ser algo que traga a ideia de ressurreição.

Apesar de vir com o Gohan até aqui, infelizmente o filho de Kakaroto não passa por essa etapa durante o primeiro grande arco da Saga Z. Quem assume a bronca daqui para frente é seu pai, pois é ele quem enfrenta a real ameaça, o Freeza.

Por outro lado, Yusuke não teve chance de recuar como Gohan. O protagonista de YYH precisou enfrentar o Toguro no torneio das trevas até que um dos dois caísse morto no chão.

9 – Recompensa

Após tantas turbulências superadas em sua jornada, é mais do que justo que nosso herói obtenha algum tipo de recompensa.

Esse prêmio representa a sua perseverança e coragem para os embates que teve até então. Ainda, tal prêmio pode ser um tesouro de alto valor, a obtenção de um poder ainda maior ou conquistar o amor de alguém. Pode ser qualquer coisa que traga um benefício real ao protagonista.

Em ambos os animes que vim usando como exemplo, acho que dá pra considerar que só “salvar seus amigos” já uma recompensa e tanto, tendo em vista o nível das ameaças que os heróis enfrentaram.

Um bom exemplo de prêmio físico aqui seria as Esferas do Dragão, quem sabe.

10 – O Caminho de Volta

O “caminho de volta” costuma não oferecer desafios ou trazer novas problemáticas para a vida de nosso herói (amém).

Logo, o caminho de volta busca ser um momento de autorreflexão, onde o herói geralmente precisa fazer uma escolha: cumprir seus desejos pessoais ou tomar uma decisão para um bem maior.

Além disso, toda a pressão das duas últimas etapas já quase que se esvaiu por completo, dando espaço para um ar de esperança e realização. Agora, a missão está cumprida, seja ela qual tenha sido.

11 – Ressurreição do Herói

Chegamos no climáx, isto é, no ponto mais alto da história! É o momento da última provação, onde o inimigo reaparece, pegando todos de surpresa.

Essa etapa costuma trazer um grande perigo. Tal perigo é grandioso o suficiente para ameaçar não somente a vida de nosso protagonista, mas sim algo que ameaça diversos tipos de âmbitos que são importantes ao herói, como sua família, amigos ou até mesmo o mundo inteiro.

Desta forma, o herói não pode perder. Costuma ser nessa hora que os roteiristas tendem a realizar o mau uso da suspensão de descrença, mas não vou aprofundar isso aqui.

É neste penúltimo passo que o inimigo é, de fato, destruído (ou não rs). Além disso, somente agora o herói pode voltar para casa com uma vida transformada. Uma vida que mudou para o protagonista e provavelmente para muitas outras pessoas também.

Seguindo com meus dois animes escolhidos, em DBZ seria o Freeza virando aquela forma mais musculosa, e lutando mais uma vez com o Goku.

Em YYH, seria o Toguro revelando sua verdadeira forma, aterrorizando todos os presentes e forçando o Yusuke a derrubá-lo de vez.

Em ambos os casos os vilões são derrotados pelos heróis, obviamente. Contudo, ambos representaram uma ameaça sem igual.

Freeza em sua última forma, em DBZ

12 – Regresso com o Elixir

Estamos agora na última etapa da jornada sintetizada por Vogler. É nesse momento que nosso herói é de fato recompensado e reconhecido.

O “regresso com elixir” pode ser lido também como uma “volta ao mundo comum”, mas com uma bagagem de uma aventura inteira nas costas.

Geralmente, é nessa parte que aqueles que eram contra o protagonista e tentaram o prejudicar tem suas devidas punições.

No fim, o grande sentimento é de que as coisas nunca mais serão as mesmas. O “mundo comum” agora se tornou um novo mundo. Melhor dizendo, virou um “mundo não tão comum assim”.

Apesar dos apesares, é fato que a volta para a Terra em DBZ carregou um ar de amargura. Todos achavam que Goku estava morto, afinal.

Para Yusuke, derrotar Toguro não significou somente uma luta, porque agora, nosso protagonista sabia que a verdadeira força vinha da vontade de proteger os amigos.

Vegeta comemorando a volta para a Terra
“Não foi deprê pra todo mundo…”
Yu Yu Hakusho, elenco

Contudo, toda essa jornada serve para evoluir o herói. Ele é levado a outro patamar, um superior. Tudo por meio de experiências que o fazem crescer, tanto em força física e em poder, quanto em amadurecimento e espírito.

Novos aliados foram conquistados, e os inimigos derrotados. E, claro, com o início do próximo arco do anime, voltamos ao passo 1 da Jornada do Herói. Assim, o ciclo se repete…

Finalizando a Jornada do Herói…

Após ler tudo isso e refletir (espero que tenha feito o acompanhamento com um anime que você gosta), tenho certeza que você se deu conta que a Jornada do Herói é uma grande sopa de padrões que vem sendo servida a séculos na mesa de todo mundo que consome os animes que tanto amamos, bem como nas outras mídias como filmes e séries.

Ressalto que não há problema nenhum em gostar de padrões. Nós somos seres humanos, e seres humanos procuram padrões, afinal.

Se essa informação estivesse errada, não seria possível tocar praticamente todo hit pop musical com somente quatro acordes. Você duvida?

Os padrões são tão marcantes e chamativos, que quando uma obra quebra alguns padrões, ela pode se tornar famosa muito rapidamente.

Todavia, além dos padrões, outra principal ideia que se pode obter por meio da análise da Jornada do Herói de Campbell (e de Vogler), é que, em 99% das histórias, os heróis são humanos que almejam algo maior. E esses humanos geralmente começam suas jornadas como “seres normais”. Normais iguais a eu e você.

Desta forma, o conceito da jornada está dentro de cada um de nós. Não importa qual seja o seu objetivo maior do momento.

Ser promovido no trabalho, alcançar a liberdade financeira, passar de ano no colégio ou até mesmo conquistar um amor…

Todos são exemplos de “jornadas” em que precisamos sair da nossa zona de conforto, entrar em um ambiente desconhecido, buscar ajuda de um mentor, aprender com os nossos erros, melhorar para, enfim, atingir nossos objetivos, conquistar nosso prêmio e retornar ao mundo comum.

Porém, agora com uma jornada digna de um herói realizada…

Escrito por

André Uggioni

Co-Fundador

Editor-chefe | Host do CúpulaCast

Criciúma - SC

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