Análise

Deca-Dence é bom? Vale a pena ver o anime? | Crítica

Deca-Dence pode não ser o “melhor anime”, mas será absolutamente memorável
22 minutos para leitura
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Finalmente criei coragem para vir falar sobre Deca-Dence. Não sei se é porque eu estava com muito medo de falar besteira sobre essa obra que gostei tanto, ou se é porque a maioria das pessoas gostou também, e isso me gerou certa pressão. Mas bem, em honra ao Pipe, porque ele merece, eu vou me arriscar aqui.

pipe de deca dence com roupinha
Coisa fofa do kct

Deca-Dence é um anime original em sua essência.

É original dentro do termo técnico dentro da indústria, que se refere à um anime que é criação do diretor, e não segue um material original como um mangá ou webtoon.

Mas também é original no sentido literal da palavra. No sentido de apresentar algo novo, e mostrar uma história divertida, empolgante e interessante. Aliás, corrigindo: pegar algo clichê, e melhorar esse clichê.

Esse anime é uma produção do estúdio Nut (Youjo Senki, o anime da loli nazista), que, até onde conseguimos descobrir, é formado por ex-animadores e profissionais da época de ouro do estúdio Madhouse (responsável pela primeira temporada de One-Punch man).

Aliás, na staff, temos um nome MUITO relevante.

Na direção temos Tachikawa Yuzuru, muito conhecido por Death Parade, anime que certamente marca todo mundo que assiste, devido sua premissa completamente original e temática muito bem trabalhada.

Em sua maleta-portfólio, o diretor também carrega a primeira e também a segunda temporada de Mob Psycho, outro anime que eu pago um pau fodido. Só quem viu Mob sabe o quanto TUDO em Mob é incrível. Tudo. A história é do ONE (mesmo de One-Punch man), mas mesmo assim, a direção do anime é impecável.

Em suma, Deca-Dence apresenta um mundo muito interessante com um worldbuilding original, com personagens que são marcantes o suficiente para você lembrar de todos os que importam e uma produção técnica bem acima da média.

visual de deca-dence com protagonistas
Visual do anime

Mas do que se trata Deca-Dence, afinal?

O primeiro episódio de Deca-Dence nos joga de cabeça num mundo distópico, onde a humanidade (ou o que restou dela) luta diariamente contra monstros chamados Gadolls.

gadolls os monstros da história correndo em meio ao deserto

Esses monstros (de origem até então desconhecida) estão sempre tentando destruir a fortaleza da humanidade, chamada de “Decadence“.

deca dence fortaleza em meio as nuvens

Nessa fortaleza temos pessoas que vivem suas vidas comuns, trabalhando com comércio local, limpeza da fortaleza, aulas “escolares”, e, claro, temos os combatentes. Neste mundo os humanos são chamados de “Tankers“.

tankers no anime

Ainda, nesse mesmo local, temos os chamados “Gears“, que apesar da aparência humanóide, são como “super-humanos”. Eles são seres com cores de pele mais incomuns, e com um design meio cyberpunk, digamos assim.

gears em deca dence conversando num caminhão

Juntos com alguns poucos Tankers que conseguem lutar, os Gears são responsáveis por conter a ameaça constante que são os monstros Gadolls.

No meio disso tudo, nós acompanharemos a clichê (porém carismática) protagonista, Natsume, em sua jornada para se tornar uma Tanker combatente, ou seja, que luta na linha de frente.

Mas ela tem uma peculiaridade: ela não possui um braço, tendo de viver com uma espécie de prótese bem limitada nem-tão-cyberpunk-assim.

braço de natsume

Então, até aqui, todos pensam que teremos mais uma história que aplica a famigerada jornada do herói; temos a protagonista underdog, com a qual precisaremos nos identificar e vê-la passar por várias dificuldades após encontrar seu mestre, e, no fim, ela salva o mundo de uma grande ameaça.

Bem, isso é o que todos pensam. É o que o diretor queria que você pensasse.

E eu aposto TUDO que ele conseguiu convencer você que teríamos uma espécie de Shingeki no Kyojin 2.0.

Só que felizmente, eu, você, e todo mundo, estávamos errados.

Deca-Dence não é o que parece, é sério!

Depois de recomendar esse anime lá página do Facebook, percebi que muita gente não tinha nem sequer dado uma chance para o anime.

E eu não os julgo, afinal, olhando trailers, visuais, sinopse; ao olhar qualquer coisa de Deca-Dence (antes de ver o episódio 2) você com certeza irá esperar um Shingeki 2.0, talvez com uma atmosfera mais leve.

Ou seja, algo que pode ser bacana, porém algo esquecível. Que sumirá da sua mente depois de algum tempo.

Só que os trailers, visuais e sinopse propositalmente não falavam o real worldbuilding do anime. Tachikawa Yuzuru, o diretor, pegou todo mundo desprevenido.

E é aqui que você que não assistiu, deve parar de ler, e ir assistir.

Só confia.

Continuou aqui? Ótimo!

No episódio 2 o anime dá um plot-twist dos plot-twists, nos jogando num mundo que mais parece um jogo. O episódio começa com um narrador, explicando todo o funcionamento desse jogo.

Es-Espera aí, jogo?

Pois é! O mundo de Deca-Dence, na verdade, é um jogo. Mas não um jogo “virtual”. É um jogo-real, onde os Tankers [humanos] são humanos de verdade, e os Gears [avatares] são controlados por seres aparentemente extra-terrestres (ou andróides?).

Ou seja, tudo nesse mundo é criando para entretenimento desses seres que controlam os Gears, e o funcionamento daquele lugar é, literalmente, como o de um jogo.

Existem tabelas de pontos, eventos e todo um storytelling para imersão completa no jogo. Os monstros Gadoll, inclusive, também são criados em prol do entretenimento.

Mas criados por quem, afinal?

Pelo “Sistema”. O grande “poder” que criou, controla e dita as regras desse mundo todo. Tanto dos seres que parece os geloko da Coca-Cola (vai dizer que não parecem!?), tanto dos humanos que vivem sem saber da verdade daquele mundo.

Referência à Matrix? Talvez.

Mas achei genialmente interessante. Me prendeu demais.

kaburagi e natsume em deca-dence em meio à fumaça

Bom, então não teremos a Jornada do Herói aqui?

Na verdade, teremos sim.

Antes mencionei a Natsume, nossa protagonista, aquela que move a trama. Nos primeiros episódios nós a acompanhamos de pertinho, vendo cada pequeno progresso em seu treinamento como um passo mais perto de atingir seu sonho.

Seu sonho de lutar nas linhas de frente contra os Gadoll, monstros que assassinaram seu pai e levaram um de seus braços quando ela era apenas uma criançinha. Seus motivos vão além da vingança, porque a Natsume é genuinamente boa. É a clássica protagonista de shounen.

Em sua jornada, ela encontra Kaburagi, o “chefe” da ala de limpeza da fortaleza Decadence, lugar onde a Natsume é obrigada a trabalhar depois de falhar entrar para os combatentes.

kaburagi em deca dence com máscara e cara de cansado
Lindo

Kaburagi, então, começa a história atuando como o mestre da jornada. Ensinando a Natsume, protegendo-a, e fazendo-a evoluir. Fisicamente e psicologicamente falando.

A relação dos dois é muito divertida, e cresce de maneira orgânica. Com o passar da história, cada vez fica mais palpável o apego que um tem pelo outro, e isso é de extrema importância, já que ambos são protagonistas e também personagens principais aqui.

Opa, eu não falei? Pois é, o Kaburagi TAMBÉM é um protagonista!

Kaburagi entra na história como mestre, quase como um personagem secundário mais trabalhado, que simplesmente estará ali para a protagonista crescer. E ele serve bem para isso.

Porém, sua função vai para bem além disso, tendo em vista que em boa parte dos episódios (da metade para frente do anime) nós praticamente nem temos mais contato com a Natsume, e agora é o Kaburagi que terá que resolver a porra toda.

Mas que “porra” ele tem que resolver?

Bem, pense no Kaburagi como sendo o Neo de Matrix. Ou seja, alguém que, depois de perceber certas coisas, começou a ir contra a Matrix. Contra o “Sistema”.

O mestre da limpeza Kabu-san é, na verdade, um dos gelokos da Coca-Cola (sério, parece muito) e ele já havia desistido de viver. Porém, o raio de luz que foi ver a Natsume, uma pessoa completamente incapaz, fez que a escuridão que assombrava sua vontade de viver se iluminasse.

kaburagi em sua forma geloko com cara séria olhando para câmera
Forma geloko do chefe!

Porém, Kaburagi já havia sido “punido” pelo sistema por seus erros. Agora, ele precisava ficar na linha para não ser descartado. Só que ele resolve que precisa ajudar a Natsume.

Algo cresceu nele. A vontade de viver volta, pela garota, mas não de um jeito amoroso. De um jeito paterno. E junto com essa vontade, a vontade de destruir aquele mundo. Um mundo de lutas cruéis e sem sentido, onde Tankers perdem suas vidas em prol do entretenimento.

Em outras palavras, Kaburagi é um bug.

E bugs precisam ser eliminados.

Ou será que não?

O grande tema de Deca-Dence

Uma vez eu era adepto daquela ideia boba de que “se não gosta, não assiste”. Sabe, aquele argumento bobo de otaku mais bobo ainda que acha que a crítica está aqui para tirar o ecchi do anime dele?

Isso, esse argumento mesmo que você pensou. Mas a crítica não está aqui somente para tirar o ecchi dos animes.

A crítica está aqui para fazer animes evoluírem, melhorarem, atingirem novos níveis. Ou, pelo menos, apresentarem uma diversidade maior de temáticas e premissas.

E a crítica serve para além do mundo dos animes.

A crítica existe para mostrar insatisfação perante à alguma coisa, e você, como crítico (todos somos, lembre-se disso), precisa expor seu ponto de vista de maneira coesa e embasada.

Muitas vezes, a crítica vem do apreço popular. Vem organicamente. Por exemplo, depois que o primeiro celular com câmera fotográfica lançou, por que você acha que TODOS possuem câmera agora?

Porque se não todo mundo ia criticar aquele que não tem. E o mercado faria a seleção. Quem produzisse sem câmera, ia falir. Com o tempo, as pessoas contariam piadas e histórias dos celulares sem câmera. Porque eles não evoluíram. Ficaram para trás.

Em Deca-Dence, Kubaragi foi um crítico perante ao Sistema. foi um crítico perante à maneira como aquele mundo funcionava. Foi crítico ao status quo. Por isso, foi considerado um bug. Um erro.

Mas como podemos evoluir sem erros?

Como qualquer coisa pode evoluir sem errar?

“O erro gera reflexão, e esta, gera evolução”

E esse é o grande tema de Deca-Dence. A sociedade precisa de bugs. Sem os bugs, não conseguimos evoluir, pois não conseguimos entender onde podemos melhorar.

Afinal, se todo mundo gosta do jeito que está, porquê mudar?

Mas nem sempre a maneira como as coisas estão é boa.

Pode ser bom para alguns, mas se para outros não é, o que impede esses outros de lutarem pelo que acham certo? E isso também não impede os adoradores do Sistema atual de lutar para manter o status quo.

No fim, são as diferenças que nos instigam a ter empatia. São essas diferenças que geram mudança. E a mudança gera evolução.

Deca-Dence me fez ter todo esse tipo de reflexão, que, apesar de batida, ainda é bem bonita, verdadeira e necessária. Ainda mais em épocas extremistas como a que vivemos…

Uma construção de mundo muito bem feita!

É sempre bom lembrar que Deca-Dence é um anime de míseros 12 episódios, mas, ao mesmo tempo que ele me fez ter todas as reflexões que citei antes, ele conseguiu me convencer que aquele mundo “fazia sentido”.

Digo, tudo foi muito bem montado. A maneira como os Tankers e Gears lutam, a lógica por trás dos Gadoll, a lógica do Sistema (e porque o Kaburagi queria acabar com tudo).

Tudo meio que fez sentido, pelo menos nessa análise que fiz, que não foi tão profunda, mas também passou longe de ser rasa. Eu procurei problemas no roteiro, ou na construção de mundo, mas não consegui.

Inclusive debatemos isso no CúpulaCast, sobre como o roteirista conseguiu deixar traços convincentes de que não teríamos deus ex machina como resolução dos problemas.

“Ah, então os Gears conseguem liberar um poderzão, porque é do jogo e tal”.

“Ah, eles não ficam sem combustível porque o sangue dos bicho é o combustível”.

“Pô, então o sistema descarta os bugs e alega dar uma segunda chance para eles. Mas, na verdade, não dá. Por isso, não há segundas chances. Logo, eles não dão margem para o erro. Sem erro, sem bugs. Sem bugs, status quo mantido. Faz sentido!”.

No fim, só posso acreditar que Deca-Dence, além de tratar um tema bacana como o lance do “precisamos de bugs”, ainda é coeso.

Show demais!

A parte técnica é um show à parte também (talvez menos o 3D)

Precisamos entender que nem todo anime será Demon Slayer. Que nem todo anime será Shingeki no Kyojin, ou Boku no Hero, ou até mesmo algum título da série Fate.

Orçamentos são limitados, então um 3D aqui e ali nós vamos encontrar direto em animes de ação com grandes elementos ou muitos movimentos, como foi o caso de Deca-Dence.

Graças a Deus passou longe de ser o que foi Gibiate, mas o 3D aqui surge em momentos intensos, mas de uma forma que, sinceramente, não me incomodou tanto assim.

Talvez seja pelo fato de eu entender pelo menos por cima como funciona a indústria da animação, então eu consigo tolerar isso bem de boa.

Mas eu entendo que ai ver o 3Dzão usado na fortaleza ou nos Gadoll possa incomodar as pessoas. E eu não julgo. Existem momentos onde parece massinha mesmo.

Seria melhor em 2D? Sim.

Era possível fazer em 2D? Não. Se não tinham feito.

Ou você acha que eles não sabem que o povo gosta mesmo é do 2D que enche o olho?

O resto da parte técnica, para mim, é um show a parte. O design do povo da Terra (aliás, é a Terra?) é “bem anime”, mas é bem feito. Nada demais.

Os geloko, por outro lado, são propositalmente BEM fora do padrão. Justamente para nos tirar da zona de conforto. Mostrar que eles são de fora. Seres que não são humanos. E isso funciona muito bem.

A direção de som (mesma de Overlord) mandou muito bem, porque todos os efeitos são bem convincentes e aumentam a imersão dos combates. A trilha sonora marca, mesmo que seja um dos primeiros trabalhos do Tokuda Masahiro.

Eu gostei.

Tudo é “perfeito” em Deca-Dence, então?

Sim!

Mentira, não.

kaburagi assustado olhando para baixo

Apesar de eu não ter comentado isso até agora, por mais que o plot-twist no episódio 2 seja bem interessante e tire a gente da zona de conforto, nós acabamos sendo baleados com muita informação por quase 3 episódios seguidos.

Ou seja, no episódio 1, nós já temos certo problema para pegar tudo. Gears, Tankers, Gadolls, temos as forças militares, o pessoal que colabora trabalhando, temos esse personagem, esse, aquele… São muitas coisas.

Estaria tudo bem, só que no episódio 2, quando a virada ocorre, mais um caminhão de informações e “verdades” são expostas. Nós, como espectadores, acabamos ficando sobrecarregados, e fica bem complicado “decorar” tudo.

No episódio 3, agora, temos a junção dessas informações, e todo o lance misterioso do Kaburagi e seu passado. De novo, muitas informações e perguntas. Isso pode acabar espantando algumas pessoas.

O grande problema é que nesse começo nós não sabemos O QUE nós precisamos “decorar”, então fica mais difícil ainda saber o que dessa bomba de informações nós temos que abraçar, e o que podemos “deixar para lá” porque depois será explicado novamente.

Além disso, o desfecho do anime também acaba sendo rápido demais. O climáx é meio sem sal, e o inimigo final foi bem “qualquer coisa”.

Em certo ponto da história, temos um personagem que some, e no final, apesar de esclarecido pelo roteiro e fazer sentido, eu achei um pouco forçado ele voltar. Não achei necessário. O trabalho dele estava feito. Havia partido como um herói.

Por fim, mas menos importante, a abertura teve uma “pegada Sword Art Online” demais pra mim. Não gostei muito não.

Finalizando a crítica de Deca-Dence

Deca-Dence pode não ser o melhor do ano, mas será absolutamente memorável. Espero ter feito um trabalho tão bom quanto fez o Wesley na RegraDe3 dele.

Esse anime, no fim, é um prato cheio para qualquer pessoa que, como eu, já cansou bastante dos clichês. Digo isso pois, apesar de ele ter clichês, ele surpreendeu demais em construção de mundo e design.

Fora que entregar tudo que comentei nesse texto em apenas 12 episódios não é uma tarefa trivial, então a apressada na entrega de informações nos dois primeiros episódios e a luta final rushadoa são entendíveis, apesar de serem “problemas”. A opening não tem desculpa, achei bem anticlimática e chata.

O diretor Tachikawa Yuzuru surpreendeu mais uma vez, e a antiga staff do Madhouse que agora compõe o Nut está de parabéns. Uma produção de altíssimo nível.

E, por fim, o grande tema de Deca-Dence é algo que precisará estar SEMPRE em debate na nossa sociedade.

Afinal, a partir do momento que ele não for mais debatido, vai significar que não temos “bugs” entre nós, não concorda?

E nós precisamos de bugs.

Seja um bug!

deca dence paisagem com dois personagens olhando para o sol se pondo

Escrito por

André Uggioni

Fundador

Vendedor | Prolixo

Criciúma - SC

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